Lição de casa, custos e a produtividade nossa de todo o dia

No palco, todo mundo se fantasia de virtude. Há quem vista o uniforme do “responsável”, quem coloque gravata de “maturidade” e quem carregue uma régua para medir a moral alheia. A plateia aplaude quando alguém promete “fazer o dever”, como se o país fosse uma criança levada e a economia, uma professora com olhar de reprovação.

Aí o teatro fecha as cortinas e a realidade aparece com a elegância de uma porta batendo.
No fim, é o carimbo no extrato que decide se você come ou se você “aprende”.

O caderno do mercado

Existe uma expressão que atravessa décadas como atravessa mofo: “lição de casa”. Ela vem embrulhada em papel celofane, com laço e tudo, como se fosse um presente para a nação. Só que, quando você abre, não é chocolate. É lista de tarefas.

A “lição” costuma pedir sempre as mesmas coisas: apertar o cinto de quem já não tem cintura, segurar salário como se salário fosse incêndio, tratar gasto social como luxo, olhar para educação e pesquisa como se fossem hobby de fim de semana. E um detalhe importante: chamar tudo isso de “responsabilidade”.

O mercado adora a palavra “responsabilidade” porque ela dá um ar de adulto a decisões que, muitas vezes, são apenas o velho instinto de proteção do rentista: proteger o valor da moeda, do título, do juro, do “meu dinheiro”, como se o dinheiro fosse uma entidade delicada que pega gripe se passar perto de gente comum.

A parte mais cômica é que a “lição de casa” raramente vem acompanhada de prova de resultado. É um ritual: faz-se o dever, entrega-se o dever, e no boletim do fim do ano aparece a mesma observação — “poderia ter feito mais”. Um sistema educacional perfeito: sempre culpa do aluno, nunca do método.

A escola onde o giz é taxa

Quando a conversa entra em produtividade, o tom muda. Fica solene. Parece culto. A palavra “produtividade” é usada como um santo padroeiro que ninguém viu, mas todo mundo invoca.

Só que produtividade não nasce de bronca. Produtividade nasce de investimento, tecnologia, logística, gestão, infraestrutura, educação, inovação. Produtividade não cresce no grito. Cresce no cimento, na máquina, no laboratório, na estrada que não vira peneira quando chove.

Aí vem a pirueta retórica: joga-se a produtividade na mesa e, com a mesma mão, aponta-se o dedo para salário. Como se salário fosse o grande culpado por a economia não voar. É uma história que funciona bem porque tem vilão conveniente: o trabalhador que “ganha demais”. O trabalhador, esse personagem que sempre “pesa”, mas nunca “carrega” mesmo carregando o país no lombo.

Se você olhar com calma, a coisa é mais simples (e mais cruel): quando a taxa básica de juros fica alta por tempo demais, investimento produtivo fica tímido, projeto vira adiamento, fábrica vira PowerPoint, e o país troca futuro por um presente “seguro” que custa caro. O custo não aparece na manchete. Aparece na vida.

A produtividade cai, não porque alguém recebeu aumento. Cai porque a economia entra naquela dieta de proteína imaginária: promessa, promessa, promessa e pouca energia real.

O banco central e o juramento

Há um personagem institucional que, por design, precisa ser rígido. É a função. Só que rigidez sem diagnóstico vira vaidade técnica. E vaidade técnica costuma ser o nome elegante da teimosia.

Eu entendo o mantra: “combater a inflação”. Mas combater “independente da razão” é quase poesia de mau gosto. Ninguém trata febre sem olhar o corpo. Ninguém resolve vazamento só aumentando a pressão da água. A pressão sobe e o cano estoura.

Inflação, no mundo real, tem causas diferentes: demanda, oferta, choques externos, câmbio, expectativas, crédito, gargalos, monopólios, guerra, clima, frete, pânico, oportunismo. Misturar tudo e tratar com um remédio só é confortável para o ritual — e perigoso para o paciente.

E aí aparece a contradição mais brasileira do planeta: o país com vocação produtiva vira parque de diversões do dinheiro rápido. Em vez de capital paciente, entra capital ansioso. Em vez de investimento de longo prazo, entra “turismo de juro”: gente que toma dinheiro barato lá fora, aplica caro aqui, e vai embora quando a música muda. Não é amor pelo Brasil. É amor pelo diferencial.

Esse fluxo tem um charme tóxico: ele valoriza a moeda, bagunça o câmbio quando sai, mexe com preços, cria volatilidade, encarece o financiamento produtivo e, de quebra, ainda posa de “confiança” internacional. Uma confiança que dura exatamente o tempo de um clique.

O gafanhoto com terno slim

O mercado adora falar em “confiança” como se fosse sentimento. Não é. É estratégia.

Se o capital especulativo entra, o discurso diz: “o mundo acredita em nós”. Se sai, o discurso diz: “o país não fez o dever”. Em ambos os casos, a narrativa preserva a pureza do mito e transfere a culpa para o mesmo lugar: a sociedade.

O capital produtivo, aquele que constrói, contrata, investe e planta, não gosta de susto. Ele gosta de previsibilidade. E previsibilidade não nasce de juros punitivos eternos; nasce de projeto, estabilidade institucional, segurança jurídica que não seja seletiva, infraestrutura que funcione, e uma macroeconomia que não trate o país como cassino.

Só que é mais fácil manter o ritual do que botar a mão na engrenagem. Ritual não dá briga. Engrenagem dá.

E aqui mora a pergunta que ninguém gosta: se o “dever de casa” é sempre o mesmo, por que a vida real continua sem o tal “crescimento sustentável” prometido na cartilha? Talvez porque o dever não seja “da casa”. Seja do dono do condomínio.

Mas Ho-kei… e se o problema for mesmo gasto público?

Claro que gasto importa. O problema é o uso moralista da palavra “gasto”.

Tem gasto que é desperdício. Tem gasto que é investimento. E tem “economia” que é só a forma elegante de cortar o futuro para salvar o presente de quem já está confortável.

Quando você corta educação, pesquisa e infraestrutura, você não está economizando. Está trocando tempo por aplauso. Está dizendo ao país: “aguenta firme agora para ficar fraco depois”. É um plano. Um plano ruim, mas é um plano.

A discussão adulta não é “gasto sim ou gasto não”. É: qual gasto aumenta a capacidade do país gerar riqueza? E, em paralelo: qual política reduz a dependência de capital volátil e fortalece investimento paciente? Sem essa dupla pergunta, a gente só brinca de austeridade performática.

Parte do investidor: mapear risco, não torcer

Agora, vamos ao ponto que interessa para quem investe sem fetiche: como atravessar esse teatro sem virar figurante?

O investidor de verdade não compra discurso. Compra capacidade. E capacidade, num país com juros altos e fluxo especulativo nervoso, tem cheiro de caixa e de balanço.

Por quê? Porque em ambiente de aperto monetário, quem tem dívida curta sofre; quem depende de refinanciamento sofre; quem vive de “crescer a qualquer custo” sofre. O mercado vira um detector de fragilidade.

Então, na prática, observe com carinho clínico:

  • Dívida e prazo: a empresa precisa rolar dívida sempre? Ou consegue respirar com o próprio caixa?

  • Geração de caixa: o lucro é contábil ou vira dinheiro no caixa? Lucro que não vira caixa é romance.

  • Sensibilidade a juros: o modelo de negócio depende de crédito barato para existir? Se depende, você já sabe o tamanho da febre.

  • Poder de repasse: a empresa consegue ajustar preço sem perder tudo? Em cenário instável, isso vira colete à prova de susto.

  • Moeda e exposição: há receitas que protegem quando o câmbio oscila? Ou a empresa fica nua no vendaval?

Isso não é para “prever o país”. É para atravessá-lo.

E há um detalhe que pouca gente quer ouvir: política econômica pode mudar. Balanço ruim não muda com discurso. Balanço ruim muda com tempo, disciplina e renegociação. Ou com colapso. O mercado, quando está impaciente, prefere a segunda opção.

O país adulto e o país obediente

Existe um país obediente, que repete o mantra, corta aqui e ali, faz cara de “maduro”, e continua com a mesma vulnerabilidade: dependência de capital volátil, infraestrutura capenga, inovação tímida, indústria que envelhece, e uma sociedade que trabalha muito para pagar caro pelo tempo.

E existe um país adulto, que entende que inflação é um problema real, mas não transforma o combate à inflação numa religião sem corpo. Um país adulto investe em produtividade de verdade, reduz gargalos, cria instrumentos para amortecer a especulação de curto prazo, fortalece financiamento de longo prazo, e trata desenvolvimento como ambição nacional — não como palavrão ideológico.

O país adulto não precisa de “lição de casa” como mantra. Precisa de plano com engenharia, metas com método, e coragem institucional para enfrentar o que não rende aplauso imediato.

Porque a pergunta que fica é simples e indecente: quem ganha quando o país vive permanentemente de joelhos diante do juro?

Será que tem Jeito?

No fim do dia, você pode decorar o dever, repetir o ritual e entregar a redação com letra bonita. Mas o país não é criança e o mercado não é professor. Mercado é credor. Credor gosta de aluno obediente.

A pergunta é: você quer um país obediente ou um país capaz?
E, na sua carteira, você está comprando empresa com caixa e disciplina… ou está comprando promessa com verniz?

Porque promessa não paga dívida.
E quando a promessa vence, ela não discute: fecha a caixa registradora.

— Ho-kei Dube

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