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Mostrando postagens de julho, 2026

A aposentadoria não avisa quando chega. Só começa a tirar os móveis do lugar

O mundo adora vestir a aposentadoria com roupas de domingo. Um casal grisalho caminha na praia, o céu permanece eternamente dourado, ninguém tem artrose, os filhos telefonam espontaneamente e o dinheiro brota de uma fonte discreta, administrada por uma senhora sorridente de blazer bege. Depois vêm as palavras “liberdade”, “merecimento” e “nova fase”, enquanto um violino higienizado toca ao fundo. Na vida real, a aposentadoria costuma chegar com uma senha do Meu INSS, três planilhas incompatíveis e uma consulta médica cujo recibo você guarda porque já não confia nem na memória nem no plano de saúde. A geração do “eu me viro” Há uma faixa da população brasileira que atravessou a vida inteira resolvendo problemas sem transformar cada dificuldade em conteúdo motivacional. São os quarentões-altos, os cinquentões já instalados e os recém-sessentões que aprenderam a trabalhar antes de aprender a descansar. Gente que viu a inflação comer o salário antes do almoço, guardou dinheiro em cader...

Quando a crença vale mais do que a empresa

  O mundo financeiro gosta de se apresentar vestido para uma cerimônia moral. De um lado, os prudentes, disciplinados e responsáveis. Do outro, os perdulários, os imprudentes e aquela gente suspeita que aparentemente acorda cedo apenas para comprometer o futuro fiscal da humanidade. No centro do palco, economistas, gestores e comentaristas ajeitam a gravata da virtude enquanto explicam quem merece crédito, quem deve apertar o cinto e quem precisa sofrer um pouco mais para que a planilha recupere sua autoestima. No fim da palestra, alguém guarda o recibo, pega a caneta emprestada e pergunta onde valida o estacionamento. Ideias de uniforme André Lara Resende escreveu sobre a persistência de crenças econômicas que sobrevivem mesmo quando a lógica, a experiência histórica e o funcionamento concreto do sistema financeiro já lhes retiraram o chão. Entre elas está a velha noção de que o investimento dependeria necessariamente de uma poupança previamente acumulada, como se cada fábrica pre...

O Minuto é um Mentiroso, e a Bolsa Adora um Fofoqueiro...

Eu não vejo gráficos. E, ainda assim, vejo o suficiente para afirmar uma coisa que vai irritar os devotos do “alerta em tempo real”: o minuto é um mentiroso profissional . Ele vive de escândalo. Ele precisa de drama. Ele precisa de alguém que aperte “atualizar” como quem puxa a cordinha da descarga — só para sentir que alguma coisa se moveu no mundo. O minuto não é um calendário: é um fofoqueiro com crachá , correndo pelos corredores do mercado, sussurrando “subiu”, “caiu”, “virou”, “azulou”, “azedou”, “pânico”, “euforia”, como se a vida inteira coubesse numa vírgula. E a gente… a gente acredita. Porque há um prazer primitivo em confundir movimento com destino. Mas se o minuto é um mentiroso, o longo prazo é um contador de histórias : lento, repetitivo, meio tedioso, e por isso mesmo verdadeiro. Ele não grita. Ele não vibra no seu bolso. Ele não pede desculpas. Só trabalha. E é aí que mora a grande perversão: quanto mais você olha, menos você entende . A Bolsa é uma praia: quem ent...

A Sala de Troféus também Acumula Poeira

No Brasil, empresa gosta de herança como gente gosta de cristaleira: fica bonita na foto e ninguém mexe. Na parede do hall, o retrato do fundador observa tudo com a serenidade de quem nunca precisou lidar com planilha de risco, sucessão e conflito de agência ao mesmo tempo. No discurso anual, a palavra “família” aparece como se fosse selo de qualidade moral. Na prática, às vezes é. Às vezes é só um cofre com vaidade. Aí o mundo real pede a assinatura no contrato e uma caneta emprestada. Ação não é Volante Existe uma confusão bem brasileira, e ela é elegante: achar que controlar é o mesmo que administrar. Não é. Controlar é escolher o rumo, o destino, o limite do risco e a filosofia de capital. Administrar é acordar todo dia para resolver cinquenta variáveis ao mesmo tempo, sem a bênção do “isso sempre foi assim”. Uma é função de propriedade. A outra é função de execução. E eu não estou demonizando família empresária, antes que alguém já pegue a tocha e o teclado. Família pode ser u...