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Mostrando postagens de agosto, 2026

A República do Remendo: como investir quando o país vive de “conserto rápido”

Existe um tipo de queda que não faz barulho. Ela não derruba copos, não arrebenta vidraças, não vira manchete com sirene. Ela só muda o ângulo do chão sob os nossos pés e, quando você percebe, já está gastando a vida inteira tentando ficar em pé no mesmo lugar. Eu chamaria isso de economia de manutenção : um país que não trabalha para construir futuro, trabalha para não desabar hoje . E convenhamos: “não desabar hoje” é um objetivo muito modesto para quem se acostumou a cantar grandeza com a voz cheia e o bolso vazio. Quando a gente vive num lugar onde o planejamento virou peça de museu e a estratégia virou sinônimo de “apagar o incêndio sem molhar o tapete”, acontece uma coisa curiosa: as pessoas passam a achar normal viver em estado de emergência. A urgência vira estética. O improviso vira cultura. A gambiarra vira escola. E a incompetência, essa senhora muito bem vestida, vira tradição de família. Eu fiquei cega aos 44. Isso não me trouxe iluminação mística: trouxe uma vantagem p...

Lição de casa, custos e a produtividade nossa de todo o dia

No palco, todo mundo se fantasia de virtude. Há quem vista o uniforme do “responsável”, quem coloque gravata de “maturidade” e quem carregue uma régua para medir a moral alheia. A plateia aplaude quando alguém promete “fazer o dever”, como se o país fosse uma criança levada e a economia, uma professora com olhar de reprovação. Aí o teatro fecha as cortinas e a realidade aparece com a elegância de uma porta batendo. No fim, é o carimbo no extrato que decide se você come ou se você “aprende”. O caderno do mercado Existe uma expressão que atravessa décadas como atravessa mofo: “lição de casa”. Ela vem embrulhada em papel celofane, com laço e tudo, como se fosse um presente para a nação. Só que, quando você abre, não é chocolate. É lista de tarefas. A “lição” costuma pedir sempre as mesmas coisas: apertar o cinto de quem já não tem cintura, segurar salário como se salário fosse incêndio, tratar gasto social como luxo, olhar para educação e pesquisa como se fossem hobby de fim de seman...

Carimbo de Modernidade: o país que normalizou a bagunça e chamou isso de “jeitinho brasileiro”

No Brasil, a gente adora uma cena de modernidade. Tem auditório, tem microfone, tem slide com palavras em inglês e tem um senhor muito convicto dizendo que “gestão é tudo”. A plateia aplaude como se tivesse descoberto o fogo. No intervalo, alguém reclama da fila, alguém reclama do sistema, alguém reclama da burocracia. Ninguém repara na ironia: o país que faz palestra sobre eficiência vive tropeçando no próprio balcão. E, no fim, quem valida o discurso é o mesmo objeto de sempre: o carimbo. Uma Data no Papel Existe um tipo de história que fica mais perigosa quando é verdadeira. Porque ela não precisa de exagero para doer. Em 1931, o Brasil organizou o ensino comercial por decreto e, dentro dele, colocou algo com um nome que parece inocente e, ao mesmo tempo, ambicioso: “curso superior de administração e finanças”. Não era um curso lateral. Estava escrito, preto no branco, como parte do desenho do ensino comercial. E aí vem a primeira “curiosidade jurídica” que faz a gente engasgar: que...

O lucro precisa merecer o próprio nome

O mundo corporativo adora entrar em cena fantasiado de virtude. De um lado, executivos prometem crescimento, transformação e legado. Do outro, conselheiros aprovam apresentações nas quais toda despesa virou investimento, todo atraso virou aprendizado e qualquer resultado abaixo do esperado recebeu o delicado nome de “normalização operacional”. No centro do palco, o lucro é convocado como testemunha de defesa: se apareceu, a gestão foi brilhante; se sumiu, a culpa pertence ao câmbio, ao clima, ao governo, ao consumidor ou a Mercúrio retrógrado. Depois da reunião, alguém recolhe os copos de plástico e confere se a conta fechou. O placar necessário O lucro tem uma função insubstituível. Ele mostra se a organização conseguiu entregar bens ou serviços por um valor superior aos recursos consumidos para produzi-los. Parece simples porque a contabilidade, quando bem-feita, tem a elegância de transformar quilômetros de decisões em algumas linhas. Receita, custos, despesas, impostos e resultado....