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A dívida que não se chama dívida

  Existe uma moralidade curiosa em torno das dívidas. Empresa “boa” tem pouca. Empresa “prudente” tem caixa. Empresa “conservadora” exibe um gráfico de alavancagem descendo suavemente para a direita enquanto executivos falam em disciplina financeira com a serenidade de monges tibetanos que acabaram de descobrir o PowerPoint. Nós, acionistas, respiramos aliviados. A dívida líquida caiu. O EBITDA subiu. A relação entre os dois parece comportada. Quase dá vontade de mandar flores para o diretor financeiro. Só que boleto não lê apresentação de resultados. O número comportado Quando comecei a tentar entender dívidas empresariais, percebi que havia cometido um erro bastante confortável: imaginava que “dívida” fosse uma coisa. Não é. Bem, tecnicamente existe a dívida financeira. Empréstimos, financiamentos, debêntures e outras formas pelas quais alguém entrega dinheiro hoje esperando recebê-lo de volta amanhã, acompanhado de juros para recompensar o incômodo. Até aí, nada misterioso. A co...

O Cofre dos Sonhos Esquecidos: Como a vida adulta terceiriza a alma para pagar o condomínio

Um dia, sem aviso, percebi que não lembrava mais o que queria da vida. Não o que preciso — isso está claríssimo, basta abrir o extrato bancário. Estou falando do que queria de verdade, antes de a vida adulta me empurrar para dentro desse carrossel corporativo que gira, gira, gira… e nunca para no brinquedo que você realmente queria. Crescemos com o roteiro oficial: estudar, trabalhar, talvez formar família, e colecionar boletos como se fossem figurinhas raras. “Sonhar? Isso é luxo de adolescente sem conta para pagar.” O mundo nos convence de que viver é manter as luzes da Sala Estar acesas e a geladeira abastecida, como se o objetivo da existência fosse não congelar nem apodrecer antes da hora. A rotina adulta é um relógio com pilhas novas e alma cansada: acordar, higiene de catálogo de farmácia, trânsito que parece castigo coletivo, café com gosto de pressa, trabalho que exige mais relatórios do que respostas, almoço rápido e, à noite, a cama como caixa de devolução do corpo para o ...

Diversidade de Vitrine e Igualdade de Caixa: o shopping temático onde todo mundo paga o mesmo aluguel

Há uma cena que eu adoro imaginar — porque ela é elegante, absurda e tristemente real: um grande salão com mesas bem postas, taças polidas, guardanapos dobrados em formato de virtude. No centro, um cardápio grosso. Nele, dezenas de “diferenças” cuidadosamente descritas, com selo dourado e foto bonita. Você escolhe: diferença A com molho de propósito, diferença B com farofa de pertencimento, diferença C sem glúten, sem culpa, sem conflito. A experiência promete: seja você mesmo , desde que “você mesmo” caiba no nosso formulário. Eu fiquei cega aos 44 e, por isso, desconfio profundamente de toda virtude que vem com manual de instruções. Quando a moral vira protocolo, a humanidade vira fila. E quando a diferença vira produto , ela perde a única coisa que a tornava interessante: o risco de ser indomável. Não estou atacando a ideia de convivência. Pelo contrário: eu gosto de gente. O que me dá alergia é a diferença domesticada , aquela que não incomoda o caixa, não atrasa a reunião, n...

A República do Remendo: como investir quando o país vive de “conserto rápido”

Existe um tipo de queda que não faz barulho. Ela não derruba copos, não arrebenta vidraças, não vira manchete com sirene. Ela só muda o ângulo do chão sob os nossos pés e, quando você percebe, já está gastando a vida inteira tentando ficar em pé no mesmo lugar. Eu chamaria isso de economia de manutenção : um país que não trabalha para construir futuro, trabalha para não desabar hoje . E convenhamos: “não desabar hoje” é um objetivo muito modesto para quem se acostumou a cantar grandeza com a voz cheia e o bolso vazio. Quando a gente vive num lugar onde o planejamento virou peça de museu e a estratégia virou sinônimo de “apagar o incêndio sem molhar o tapete”, acontece uma coisa curiosa: as pessoas passam a achar normal viver em estado de emergência. A urgência vira estética. O improviso vira cultura. A gambiarra vira escola. E a incompetência, essa senhora muito bem vestida, vira tradição de família. Eu fiquei cega aos 44. Isso não me trouxe iluminação mística: trouxe uma vantagem p...

Lição de casa, custos e a produtividade nossa de todo o dia

No palco, todo mundo se fantasia de virtude. Há quem vista o uniforme do “responsável”, quem coloque gravata de “maturidade” e quem carregue uma régua para medir a moral alheia. A plateia aplaude quando alguém promete “fazer o dever”, como se o país fosse uma criança levada e a economia, uma professora com olhar de reprovação. Aí o teatro fecha as cortinas e a realidade aparece com a elegância de uma porta batendo. No fim, é o carimbo no extrato que decide se você come ou se você “aprende”. O caderno do mercado Existe uma expressão que atravessa décadas como atravessa mofo: “lição de casa”. Ela vem embrulhada em papel celofane, com laço e tudo, como se fosse um presente para a nação. Só que, quando você abre, não é chocolate. É lista de tarefas. A “lição” costuma pedir sempre as mesmas coisas: apertar o cinto de quem já não tem cintura, segurar salário como se salário fosse incêndio, tratar gasto social como luxo, olhar para educação e pesquisa como se fossem hobby de fim de seman...

Carimbo de Modernidade: o país que normalizou a bagunça e chamou isso de “jeitinho brasileiro”

No Brasil, a gente adora uma cena de modernidade. Tem auditório, tem microfone, tem slide com palavras em inglês e tem um senhor muito convicto dizendo que “gestão é tudo”. A plateia aplaude como se tivesse descoberto o fogo. No intervalo, alguém reclama da fila, alguém reclama do sistema, alguém reclama da burocracia. Ninguém repara na ironia: o país que faz palestra sobre eficiência vive tropeçando no próprio balcão. E, no fim, quem valida o discurso é o mesmo objeto de sempre: o carimbo. Uma Data no Papel Existe um tipo de história que fica mais perigosa quando é verdadeira. Porque ela não precisa de exagero para doer. Em 1931, o Brasil organizou o ensino comercial por decreto e, dentro dele, colocou algo com um nome que parece inocente e, ao mesmo tempo, ambicioso: “curso superior de administração e finanças”. Não era um curso lateral. Estava escrito, preto no branco, como parte do desenho do ensino comercial. E aí vem a primeira “curiosidade jurídica” que faz a gente engasgar: que...

O lucro precisa merecer o próprio nome

O mundo corporativo adora entrar em cena fantasiado de virtude. De um lado, executivos prometem crescimento, transformação e legado. Do outro, conselheiros aprovam apresentações nas quais toda despesa virou investimento, todo atraso virou aprendizado e qualquer resultado abaixo do esperado recebeu o delicado nome de “normalização operacional”. No centro do palco, o lucro é convocado como testemunha de defesa: se apareceu, a gestão foi brilhante; se sumiu, a culpa pertence ao câmbio, ao clima, ao governo, ao consumidor ou a Mercúrio retrógrado. Depois da reunião, alguém recolhe os copos de plástico e confere se a conta fechou. O placar necessário O lucro tem uma função insubstituível. Ele mostra se a organização conseguiu entregar bens ou serviços por um valor superior aos recursos consumidos para produzi-los. Parece simples porque a contabilidade, quando bem-feita, tem a elegância de transformar quilômetros de decisões em algumas linhas. Receita, custos, despesas, impostos e resultado....

A aposentadoria não avisa quando chega. Só começa a tirar os móveis do lugar

O mundo adora vestir a aposentadoria com roupas de domingo. Um casal grisalho caminha na praia, o céu permanece eternamente dourado, ninguém tem artrose, os filhos telefonam espontaneamente e o dinheiro brota de uma fonte discreta, administrada por uma senhora sorridente de blazer bege. Depois vêm as palavras “liberdade”, “merecimento” e “nova fase”, enquanto um violino higienizado toca ao fundo. Na vida real, a aposentadoria costuma chegar com uma senha do Meu INSS, três planilhas incompatíveis e uma consulta médica cujo recibo você guarda porque já não confia nem na memória nem no plano de saúde. A geração do “eu me viro” Há uma faixa da população brasileira que atravessou a vida inteira resolvendo problemas sem transformar cada dificuldade em conteúdo motivacional. São os quarentões-altos, os cinquentões já instalados e os recém-sessentões que aprenderam a trabalhar antes de aprender a descansar. Gente que viu a inflação comer o salário antes do almoço, guardou dinheiro em cader...