O Eu, o Outro e o Pix: Como o mercado treina seus sentidos para vender o que você já queria comprar antes mesmo de saber
Os sentidos, dizem, são janelas para o mundo. Mas ultimamente, desconfio que estão mais para vitrine de shopping de luxo: você não vê o que há, vê o que pode ser vendido. Antes que me acusem de filosofia barata com etiqueta de boutique, aviso: sou cega. E posso garantir que os olhos mentem com a mesma desenvoltura dos algoritmos de recomendação. Enquanto todo mundo se preocupa com o que vê, ouve ou sente, pouca gente se pergunta: “Quem ensinou meu corpo a interpretar o mundo assim?” Porque, convenhamos, ninguém nasce achando uma nota de cem mais valiosa do que uma flor. Isso é um tipo de educação estética, econômica e política que a gente absorve como perfume caro: pelo ar, sem saber direito o que está inalando. E de repente, já está achando que um gráfico de projeção de crescimento é mais confiável que sua própria intuição. Mas voltemos aos sentidos. Há quem ouça “tchibum” e pense em praia. Outros ouvem “tic-tac” e sentem o tempo correndo nas veias feito boleto vencido. Eu, quando ...