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O Contrato em Velocidade 2x (e o Juros que Fala Baixinho)

por Ho-kei Dube — Dinheiro Que Me Veja Tem gente que veste a moral como quem veste jaleco: para parecer limpa enquanto manipula coisa contagiosa. É uma cena clássica. A voz é “educada”, o script é “protocolar”, o sorriso é “de atendimento”. No fundo, é só uma mão com luva pegando no seu pulso e chamando isso de cuidado. A parte mais interessante é o figurino: a vítima nunca é tratada como vítima. Ela é tratada como “cliente”. E cliente, você sabe, é sempre culpado de ter confiado — como se confiança fosse uma falha de caráter e não um recurso humano básico. No fim, não sobra discurso. Sobra o comprovante amassado , uma caneta falhando e um saldo que sumiu do balcão . A Fala Rápida, o Dado Lento Existe um tipo de violência que não grita. Ela corre. Ela faz questão de não deixar espaço entre uma frase e outra, porque espaço é onde a consciência nasce. É onde alguém pensa: “péra”. Quando uma pessoa atendente despeja “benefícios” na velocidade de áudio acelerado, ela não está apenas...

Manual Prático de Emburrecimento em Massa — Agora com CNPJ e Fundo de Investimento: Por que a burrice rentável nunca foi um privilégio das novas gerações?

Costumo ouvir, com certa frequência, que o mundo está emburrecendo. A cada geração, os mais velhos sussurram com pesar e convicção: “no meu tempo...” — e a frase vem seguida de uma ode à caneta azul, à paciência com a tabuada, ao respeito aos mais velhos e ao gosto por livros sem figuras. Para esses arqueólogos do próprio umbigo, o mundo desandou justamente no exato momento em que eles deixaram de entender os botões do controle remoto. Ora, me poupem. Ou melhor: me invistam. A ideia de que as novas gerações são mais burras não é apenas preguiçosa — ela é extraordinariamente conveniente. Porque transfere para os ombros dos netos a ruína que começou nos investimentos dos avôs. E o mais curioso: os que defendem essa tese não hesitam em comprar criptomoeda por indicação de sobrinho, instalar aplicativo de IA para “ver como seria seu rosto em 1800” e postar sua indignação sobre a ignorância alheia com erros de português em letras garrafais. A decadência sempre é do outro. O Álibi da Nos...

Feriado moral, segunda-feira de caixa

Tem sempre alguém na mesa dizendo que “a empresa cresce porque tem propósito”, como se propósito pagasse frete, como se valores sustentassem estoque, como se a palavra “cultura” quitasse boleto no vencimento. A cena é bonita: gente bem-intencionada, frases bem editadas, fotos bem iluminadas, e aquele ar de “somos diferentes” que o mercado ama vender — desde que o caixa não peça explicação. Só que, quando o teatro termina, a realidade assina com letra miúda. E a letra miúda, no Brasil, tem forma de recibo carimbado e saldo insuficiente. O oxigênio que ninguém posta Há um personagem que manda mais do que o diretor, mais do que o conselho, mais do que o planejamento estratégico com capa de couro: o intervalo entre vender e receber . Esse intervalo é o verdadeiro chefe. Ele não dá palestra. Ele dá falta. Capital de giro é essa coisa sem glamour que não vira foto de LinkedIn: é o ar entre a coragem de entregar e a paciência de esperar o dinheiro entrar. E “esperar” é um verbo caro. Caro do ...

A Porta Nem Sempre Leva a Algum Lugar, Mas Às Vezes Leva a Você! (por que atravessar certos portais exige mais do que um ingresso e menos do que uma selfie?)

Algumas portas não se abrem. Outras se abrem para lugar nenhum. E há aquelas que se abrem para dentro. Mas ninguém avisou que para atravessá-las seria preciso não estar de óculos escuros — mentais ou emocionais. Não me refiro à visão, veja bem. Mas ao vício do olhar superficial, distraído, treinado apenas para o que brilha. A vida, como o bom vinho e o mau investimento, revela sua verdade no fundo do copo. Aos 44 anos, quando perdi a visão, ganhei outra coisa. Não uma superação piegas nem uma iluminação mística — mas a capacidade de identificar falsos portais. Aqueles que prometem transcendência, mas entregam publicidade. Que prometem êxtase, mas vendem terapia em grupo disfarçada de planilha de autoconhecimento. São muitos. O mercado está cheio deles. Portais de alta performance, de mindset exponencial, de riqueza vibracional e outros nomes que dariam excelentes drinks em bares temáticos. Todos têm trilha sonora, taxa de inscrição, QR Code e, claro, um bônus exclusivo se você pagar...

A Carteira do Eterno: quando você trabalha e espera para investir como se o tempo fosse ilimitado

Eu adoro quando o mundo decide vestir o trabalho de virtude. Fica tudo mais bonito: quem “não para” vira exemplo, quem “descansa” vira suspeito, e sempre aparece um coro de gente ocupadíssima explicando que a vida é uma escada e que você só cai porque não “correu o suficiente”. É quase uma religião, com liturgia diária, culpa semanal e promessa de paraíso no fim do mês. Só que o tempo não aceita fé. Ele aceita calendário. E calendário não dá desconto no caixa. O relógio que não negocia Há gente que trabalha como se a vida tivesse crédito rotativo infinito. Como se o amanhã fosse um patrimônio garantido. Como se o corpo fosse um equipamento de empresa: você usa, usa, usa e, quando quebra, troca por outro. Só que o corpo não tem garantia estendida e o “outro” não chega. O mercado adora essa fantasia. Porque, quando você acredita que terá sempre tempo, você aceita quase qualquer coisa hoje. Você adia o jantar, a conversa, o médico, o silêncio, a própria casa. “Depois eu compenso”, vo...

A Moeda do Tanque: quando o mundo finge discutir petróleo, mas está brigando pelo recibo

Eu adoro quando a economia se fantasia de moral. Fica tudo mais fotogênico: “o bem” de um lado, “o mal” do outro, e um coro de especialistas com voz de telejornal explicando que o problema é “a instabilidade”, “a intolerância”, “a ameaça civilizacional” — como se o planeta fosse uma peça de teatro mal ensaiada. Só que quase toda grande briga internacional começa exatamente onde a poesia termina: no recibo. Não é o petróleo em si que enlouquece o mundo. É a pergunta miúda, prosaica e indecente: quem assina a nota , com qual caneta — e em que moeda . O truque do mundo moderno: transformar necessidade em religião Petróleo (e qualquer energia que mova o cotidiano) não é mercadoria comum. Ele tem uma qualidade que nenhum discurso motivacional consegue falsificar: a demanda é teimosa. Você pode cancelar streaming, cortar o brunch, virar minimalista de aplicativo. Mas, quando transporte e energia sobem, até a sua filosofia acorda com dor na lombar. O mundo, que não é bobo, fez da energia ...

Quando o Número Mente, Mas o Caráter Grita

Alguns investem em gráficos e dicas. Outros, em pessoas. E há quem jure que o número é a única verdade confiável do mercado. Esses, geralmente, acabam chorando em silêncio quando a planilha quebra o coração. Porque o número, coitado, não passa de um reflexo temporário — às vezes maquiado, às vezes bêbado, quase sempre cego para o que realmente importa: a qualidade da história por trás da conta. A maioria dos balanços brilha como vitrine de joalheria: luz calculada, vidro polido, exposição cirúrgica do que convém mostrar. E, ainda assim, há quem entre nesses estabelecimentos de lucros decorativos achando que está adquirindo solidez. Spoiler: está comprando vitrines. Não, meu bem, a verdadeira riqueza não se revela na rentabilidade trimestral, mas na firmeza de propósito de quem segura o timão do barco — mesmo quando o mar muda de humor. Investir, no fim das contas, é escolher quem você quer que pilote seu navio enquanto você cochila confiando que acordará em terra firme. A Arte Esqu...

Estatística, Sal Grosso e a Ilusão de Controle (como o mercado trocou os rituais por planilhas, sem jamais deixar de acreditar em milagres?)

Eu cresci ouvindo que não se varre a casa depois das seis da tarde. Nem se canta na cozinha — muito menos de costas. Que cruzar pernas enquanto reza bloqueia a graça. Que manga com leite mata. Que espelho quebrado dura sete anos e promessa feita na chuva gruda que nem urucubaca. Eu não acreditava em nada disso, é claro. Mas — veja bem — também não duvidava por completo. Afinal, tem coisa que a gente não entende, e tudo que a gente não entende, cedo ou tarde, vai parar na prateleira do medo. Foi assim com a tempestade, com a fertilidade, com o amor não correspondido — e agora com o risco financeiro. Sim, risco. Aquela entidade moderna com cara de fórmula matemática, que ninguém viu, ninguém segurou, mas que ronda as decisões dos investidores como um espírito meio debochado: aparece quando você se acha mais preparado. Enquanto minha avó benzia criança com infusão de arruda e pétalas de rosa, o mercado hoje benze portfólio com modelo estocástico. E a diferença entre os dois, francamente...

Portfólio de Vida: Como Diversificar o que Não Cabe na Planilha

Dizem que dinheiro não compra felicidade. Que graça teria a felicidade, se desse para parcelar em doze vezes sem juros? Prefiro a versão menos piedosa e mais útil: dinheiro compra silêncio. Silêncio para as urgências que gritam, para as contas que latem, para as madrugadas em que a cabeça faz barulho. Dinheiro compra a pausa em que se decide sem pânico. O resto — sentido, amor, liberdade de dizer “não” — precisa de outras moedas. É por isso que eu não abro os olhos: quem precisa abrir os olhos é o dinheiro. Ele que aprenda, de uma vez, que o objetivo não é se exibir na tela com números gordos, mas sustentar o palco onde a vida acontece sem microfonia. Aprendi — tropeçando com elegância — que a vida funciona como uma carteira bem montada: há ativos que dão retorno lento, outros que sobem e descem como elevador de prédio antigo, e alguns que parecem promissores na vitrine, mas murcham no primeiro uso. Não estou falando de ações ou títulos; estou falando de escolhas. Trabalho, família, c...