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O Drama É Uma Bolsa de Valores: Quanto Mais Sofrido, Mais Valorizado

Toda vez que alguém me diz que “final feliz é coisa de conto de fadas”, eu suspeito de duas possibilidades: ou essa pessoa foi criada à base de filmes dublados mal traduzidos, ou está investindo pesado na Bolsa de Sofrimento Imaginário - onde o drama rende mais do que o CDI e a lágrima tem cotação em euro. É impressionante como o mercado simbólico do mundo atual remunera melhor a dor do que a esperança. Não estou falando da dor real, física, crua, que nos dobra o corpo e a existência. Essa ninguém quer ver. Refiro-me à dor esteticamente polida, curada em barris de carvalho, exportada em forma de postagens com legenda poética e fundo pastel envelhecido. O drama virou commodity. E, como toda commodity valiosa, precisa ser escasso e espetacular: ou é trágico ou é desinteressante. Vivemos na era do final amargo gourmetizado. Da angústia com pós-graduação. Da infelicidade que desfila com cara de autenticidade. Alegrias são tratadas como produtos genéricos. Já a tristeza? Ah, essa virou ar...

Sermão no Saguão

A empresa abre a porta de vidro, põe uma frase bonita na parede, acende um aromatizador de “ética” e chama isso de cultura. Na recepção, tem um quadro com palavras que cabem em um brinde: propósito, respeito, integridade, sustentabilidade. A moça do crachá sorri como quem garante que ali dentro ninguém mente, ninguém explora, ninguém terceiriza culpa. No elevador, um executivo ensaia um discurso sobre “valor para a sociedade” como se fosse um hino nacional corporativo. Aí a realidade pede a caneta e o recibo. A Frase que Virou Senha O capitalismo moderno não foi domado por uma revolução. Foi domado por uma linguagem. Uma linguagem que parece neutra, técnica, elegante e muito “racional”: a empresa existe para maximizar valor ao acionista. O resto é desvio. O resto é sentimentalismo. O resto é agenda. Esse entendimento dominante não nasceu do nada. Ele virou mainstream porque era útil. Útil para simplificar decisões, para “justificar” corte de custo como virtude, para tratar gente co...

O Lucro Tem Boa Memória. Já os Mortos, Nem Sempre: Por que o silêncio também é um instrumento de poder — inclusive nos balanços e nos monumentos?

Há quem diga que o tempo cura tudo. Isso é mentira. O tempo apenas arquiva. E como todo bom arquivista corporativo, também ele aprende a esconder documentos sensíveis, a maquiar resultados e a esquecer o que for inconveniente. O tempo, meus caros leitores e leitoras, é um contador treinado por décadas em alguma auditoria de reputação duvidosa. Ele não mente — apenas não lembra. E esquecer, neste mundo, é quase sempre um ato com CNPJ. Quando alguém diz que a história é escrita pelos vencedores, o que raramente se menciona é que esses vencedores têm um departamento de marketing excepcional. São capazes de transformar genocídios em episódios, chacinas em “ajustes territoriais” e apagamentos em “progresso”. É claro, ninguém gosta de conviver com o próprio passado — especialmente quando ele fede. Mas há algo ainda mais cruel do que matar: é 'deslembrar'. E o mercado, esse escultor de narrativas, é perito nisso. Esquece crises como quem arquiva e-mails. Varre escândalos com o rod...

O Dividendo que Não Cai na Conta: a família como ativo que o mercado não sabe precificar

Eu não enxergo mais desde os 44, mas há um tipo de cegueira que continua me comovendo: a de quem vê tudo — relatório, meta, ranking, “performance”, “pipeline”, “entregável” — e não percebe que a própria vida está sendo administrada como um caixa de loja em liquidação permanente. O problema não é trabalhar. O problema é virar funcionário da própria ambição , com crachá emocional e senha de acesso ao pânico. Há alguns anos, num evento qualquer desses onde gente adulta finge que não precisa dormir, eu ouvi uma frase que me acompanhou como um cheiro difícil de lavar. Não foi num palco, nem num microfone, nem num discurso inspirador de alguém com sorriso de porcelana. Foi numa conversa lateral, num canto, sem plateia, que é onde a verdade costuma aparecer — sem maquiagem. Um homem (mas poderia ser uma mulher, e talvez fosse ainda mais cruel) estava falando de “crescimento”, de “expansão”, de “alavancagem”, como se a vida fosse uma planilha que pede mais colunas. Ele falava com orgulho: a...

O Eu, o Outro e o Pix: Como o mercado treina seus sentidos para vender o que você já queria comprar antes mesmo de saber

Os sentidos, dizem, são janelas para o mundo. Mas ultimamente, desconfio que estão mais para vitrine de shopping de luxo: você não vê o que há, vê o que pode ser vendido. Antes que me acusem de filosofia barata com etiqueta de boutique, aviso: sou cega. E posso garantir que os olhos mentem com a mesma desenvoltura dos algoritmos de recomendação. Enquanto todo mundo se preocupa com o que vê, ouve ou sente, pouca gente se pergunta: “Quem ensinou meu corpo a interpretar o mundo assim?” Porque, convenhamos, ninguém nasce achando uma nota de cem mais valiosa do que uma flor. Isso é um tipo de educação estética, econômica e política que a gente absorve como perfume caro: pelo ar, sem saber direito o que está inalando. E de repente, já está achando que um gráfico de projeção de crescimento é mais confiável que sua própria intuição. Mas voltemos aos sentidos. Há quem ouça “tchibum” e pense em praia. Outros ouvem “tic-tac” e sentem o tempo correndo nas veias feito boleto vencido. Eu, quando ...

O Mordomo de Silício e a Última Profissão Humana: aprender a viver quando o trabalho vira acessório

Dizem que a era do robô chegou. Eu, que perdi a visão e ganhei um radar para farsas, acho essa frase otimista demais — quase um slogan de inauguração de shopping. A era do robô não “chega”: ela vaza . Entra por baixo da porta, ocupa a sala enquanto você discute o preço do café e, quando percebe, sua rotina está sendo terceirizada para uma criatura sem cansaço, sem domingo e sem crise existencial. Acontece que nós, humanos, temos um vício antigo: achar que toda novidade é espetáculo. A tecnologia muda a estrutura do mundo e a gente responde com um misto de deslumbramento e preguiça intelectual. Um tipo de festa com música alta e extintor escondido. E é aí que mora o perigo elegante: não é o robô em si. É a nossa mania de tratar transformação histórica como se fosse tendência de vitrine . A automação não é um monstro: é um espelho (e ele não é lisonjeiro) Vamos colocar alguns números na mesa — não para bancar economista, mas para evitar o delírio. Um estudo recente da Organização Int...

Os Milionários do Tédio: Por que o dinheiro grande costuma entrar pela porta dos fundos e calça sapatos sem brilho?

Há um teatro muito simpático em curso no capitalismo contemporâneo: a plateia aplaude foguetes, aplicativos, slogans de garagem e rapazes de gola preta que prometem “disrupção” enquanto queimam caixa com a serenidade de quem acende charuto com nota alta. O mercado adora uma fantasia tecnológica, um enredo com luz azul, uma palavra em inglês e uma promessa de escala que dispense a inconveniência de dar lucro cedo demais. Enquanto isso, no canto da cena, longe do telão e do confete, alguém vende parafuso, repõe freezer, entrega legumes, abastece cozinhas, troca filtros, organiza estoque, emite boleto e dorme. No dia seguinte, acorda mais rico. No fim, o patrimônio costuma gostar mesmo é de balcão, planilha e caminhão. Tapete sem lantejoula Existe uma razão quase constrangedora para tantos negócios monótonos enriquecerem seus donos: a vida real é chata. E justamente por isso ela paga bem. As pessoas romantizam o extraordinário, mas o dinheiro grosso costuma morar na rotina. Não na rot...

Perdão Não Vira PIX: E outras verdades sobre desculpas corporativas com data vencida e selo de conveniência emocional

Existe um momento na vida — geralmente entre o fim das reuniões inúteis e o início da senilidade programada — em que certas criaturas do mundo corporativo descobrem que têm uma consciência. Não uma consciência crítica, dessas que denunciam desigualdades e desmontam sistemas perversos. Não. A consciência de que foram canalhas, mas que agora precisam de um gesto de “cura” que não inclua devolver o bônus, pedir demissão ou abrir espaço para quem realmente trabalha. Querem apenas um “perdãozinho” para dormir melhor. Você sabe do que estou falando. Aquele chefe que explorou sua alma, desvalorizou seu esforço, minimizou sua existência — e agora, passadas duas décadas, aparece com uma frase tímida: “Se em algum momento eu te fiz mal, me perdoa”. O “se” é sempre a melhor parte. Como se houvesse dúvida. Como se não houvesse testemunhas. Como se a memória das vítimas estivesse sujeita a revisão trimestral, tal qual os relatórios da empresa. Só que tem um detalhe: as vítimas evoluem. Crescem. F...

O Tribunal de Bolso: quando o investidor vira juiz, júri e carrasco do próprio dinheiro

Eu adoro quando a gente decide que a vida precisa de um código penal para funcionar. Fica tudo mais limpo — e bem mais teatral. De um lado, os “disciplinados”; do outro, os “irresponsáveis”. No meio, um coro de gente séria, com frases prontas e sobrancelha treinada, explicando que o problema do mundo é a “falta de consciência”, a “degeneração dos valores”, a “crise ética”. Como se a humanidade fosse um condomínio e a existência, uma assembleia. Só que, quase sempre, o moralismo é só o figurino de algo mais íntimo: o prazer de julgar. E no mercado, esse prazer costuma vir com boleto. A toga do investidor O julgamento é uma droga socialmente aceita. Não dá ressaca, não engorda, não aparece no exame de sangue. Você pode condenar gente em silêncio, com educação impecável e até com um sorriso. O mundo te aplaude: “olha como ele tem opinião”. Só que opinião, quando vira compulsão, vira vício. E vício, quando encontra dinheiro, vira prejuízo com perfume. O investidor-juiz é aquele que en...