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A Sala de Troféus também Acumula Poeira

No Brasil, empresa gosta de herança como gente gosta de cristaleira: fica bonita na foto e ninguém mexe. Na parede do hall, o retrato do fundador observa tudo com a serenidade de quem nunca precisou lidar com planilha de risco, sucessão e conflito de agência ao mesmo tempo. No discurso anual, a palavra “família” aparece como se fosse selo de qualidade moral. Na prática, às vezes é. Às vezes é só um cofre com vaidade. Aí o mundo real pede a assinatura no contrato e uma caneta emprestada. Ação não é Volante Existe uma confusão bem brasileira, e ela é elegante: achar que controlar é o mesmo que administrar. Não é. Controlar é escolher o rumo, o destino, o limite do risco e a filosofia de capital. Administrar é acordar todo dia para resolver cinquenta variáveis ao mesmo tempo, sem a bênção do “isso sempre foi assim”. Uma é função de propriedade. A outra é função de execução. E eu não estou demonizando família empresária, antes que alguém já pegue a tocha e o teclado. Família pode ser u...

Cabelos de Prata, Contratos Cegos

Há um certo pudor na maneira como falamos de envelhecer. O mercado usa eufemismos vistosos, promete vitalidade em frascos caros, vende “energia” em cápsulas e chama gente com cabelos de prata de “novo público premium”, como se trocando o rótulo resolvesse-se o conteúdo. Enquanto isso, o aplicativo do banco pede “sorria para a câmera” como se a vida fosse um vestibular de beleza biométrica; a tela brilha, mas a dignidade apaga. Eu, que perdi a visão aos 44 e ganhei ironia em dobro, digo sem cerimônia: quem precisa abrir os olhos não sou eu — é o dinheiro. A demografia não é opinião: há mais gente vivendo mais tempo, e vivendo melhor ali onde a liberdade não é apenas o direito de sair à rua, mas o de acessar o próprio saldo sem peregrinação digital. Há uma transformação silenciosa que não cabe no estereótipo do “jovem investidor que aprende cedo”: ela exige outro repertório, outra arquitetura de processos, um respeito que não vem no pacote de slides. Longevidade não é “nicho”; é o novo ...

Quando o dinheiro corre demais, alguém está vendendo a saída: A inteligência artificial, o entusiasmo do mercado e a velha arte de não pagar caro por uma fantasia bem iluminada

O mundo financeiro adora se fantasiar de moral. Veste terno de prudência, passa perfume de inovação, sobe ao palco com voz grave e anuncia que estamos diante de uma nova era, daquela espécie que sempre exige urgência, capital abundante e suspensão temporária do bom senso. A plateia aplaude. Os bancos sorriem. Os relatórios engrossam. A palavra “disrupção” entra pela porta da frente como se tivesse pago ingresso VIP. No fim, alguém fica segurando um recibo amassado no balcão. E recibo, ao contrário de promessa, não aceita edição posterior. Luz demais A inteligência artificial é real. Convém começar por aí, antes que algum sacerdote da euforia me acuse de heresia tecnológica e mande me queimar numa fogueira feita de apresentações corporativas. A IA já transforma rotinas, acelera códigos, reorganiza escritórios, invade diagnósticos, escreve atas, resume contratos, sugere imagens, erra com confiança e acerta com uma eficiência que incomoda. Negar isso seria como negar a eletricidade porque...

O Ego Não Tira Férias: E Ainda Faz Check-in no Grupo da Firma

A primeira coisa que se aprende depois de perder a visão é que o 'silêncio de imagens' pode ser generoso. Um bom silêncio tem a decência de não se intrometer. Não pisca, não abana, não manda “figura motivacional”. Um bom silêncio respeita até o que você ainda não entendeu sobre si mesma. Já o exibicionismo travestido de empatia, esse sim é cego — mas no pior sentido: invasivo, tagarela e vestido com colete fluorescente escrito “só quero ajudar”. Vivemos a era da empatia com ponto de exclamação. Do conselho que ninguém pediu. Do compartilhamento compulsivo de luz, foco e gratidão — como se o mundo inteiro tivesse aberto vaga para coach espiritual, terapeuta sem CRM e missionário da paz universal. Todo “chato premium” é assim: oferece opinião com a generosidade de quem distribui panfleto de promoção vencida. O problema? Você não pediu panfleto nenhum. Está ali, no seu canto, tentando sobreviver ao mês com duas dívidas, um boleto e um débito automático que parece ter vida própria...

Quando o Medo Compra e a Memória Assina

Há dias em que eu caminho pela cidade de olhos fechados — o que, convenhamos, não é exatamente uma novidade no meu caso — só para ouvir a economia falar. Ela fala pouco e cochicha muito. O ruído do mercado é um sussurro insistente: promessas sibilantes, gráficos que riem de quem não entende a piada, manchetes luminosas como vaga-lumes drogados. O dinheiro adora holofotes e, quando os holofotes faltam, ele inventa um brilho próprio. Chama-se “lembrança”. Chama-se “imagem”. Chama-se, para quem aprecia a liturgia dos termos, a tal heurística da disponibilidade: aquilo que salta mais rápido da memória é o que comanda a mão na carteira. Sei que a palavra assusta, mas não é um bicho. É uma preguiça da mente. Em vez de pensar, a cabeça procura o atalho do que está mais vívido. O susto vira régua de medir o mundo. A cena que grudou vira prova. A frase repetida vira verdade. A primeira história que chega ao ouvido reina como imperador de papel. E o investidor — sim, você, eu, nós — somos súdit...

Roubar é Errado (Exceto Quando o Balanço Fecha)

Dizem que a mentira tem perna curta. Eu, como cega, não posso confirmar o comprimento, mas posso garantir que ela corre mais rápido do que muita verdade com preparo físico. E, no mundo financeiro, corre ainda mais depressa quando está usando sapatos de couro legítimo e paletó bem cortado. Lembro-me de uma situação que um amigo me contou anos atrás e parecia simples: elaborar um treinamento interno sobre “ética corporativa”. O título já me fez sorrir, como quem lê “diet” na embalagem de um bolo de chocolate. Ele foi chamado porque, segundo a gerência, “poucos explicam tão bem esses conceitos para a equipe”. Traduzo: poucos falam com tanta clareza coisas que precisamos fingir que acreditamos . Ele preparou um conteúdo robusto, com exemplos históricos, casos emblemáticos, dilemas reais. Mas aí veio o primeiro corte. “Talvez seja melhor suavizar”, disse a coordenadora, “para não constranger ninguém”. Tradução: não queremos que os exemplos se pareçam demais com a vida real . Ele reduziu....

O Drama É Uma Bolsa de Valores: Quanto Mais Sofrido, Mais Valorizado

Toda vez que alguém me diz que “final feliz é coisa de conto de fadas”, eu suspeito de duas possibilidades: ou essa pessoa foi criada à base de filmes dublados mal traduzidos, ou está investindo pesado na Bolsa de Sofrimento Imaginário - onde o drama rende mais do que o CDI e a lágrima tem cotação em euro. É impressionante como o mercado simbólico do mundo atual remunera melhor a dor do que a esperança. Não estou falando da dor real, física, crua, que nos dobra o corpo e a existência. Essa ninguém quer ver. Refiro-me à dor esteticamente polida, curada em barris de carvalho, exportada em forma de postagens com legenda poética e fundo pastel envelhecido. O drama virou commodity. E, como toda commodity valiosa, precisa ser escasso e espetacular: ou é trágico ou é desinteressante. Vivemos na era do final amargo gourmetizado. Da angústia com pós-graduação. Da infelicidade que desfila com cara de autenticidade. Alegrias são tratadas como produtos genéricos. Já a tristeza? Ah, essa virou ar...

Sermão no Saguão

A empresa abre a porta de vidro, põe uma frase bonita na parede, acende um aromatizador de “ética” e chama isso de cultura. Na recepção, tem um quadro com palavras que cabem em um brinde: propósito, respeito, integridade, sustentabilidade. A moça do crachá sorri como quem garante que ali dentro ninguém mente, ninguém explora, ninguém terceiriza culpa. No elevador, um executivo ensaia um discurso sobre “valor para a sociedade” como se fosse um hino nacional corporativo. Aí a realidade pede a caneta e o recibo. A Frase que Virou Senha O capitalismo moderno não foi domado por uma revolução. Foi domado por uma linguagem. Uma linguagem que parece neutra, técnica, elegante e muito “racional”: a empresa existe para maximizar valor ao acionista. O resto é desvio. O resto é sentimentalismo. O resto é agenda. Esse entendimento dominante não nasceu do nada. Ele virou mainstream porque era útil. Útil para simplificar decisões, para “justificar” corte de custo como virtude, para tratar gente co...

O Lucro Tem Boa Memória. Já os Mortos, Nem Sempre: Por que o silêncio também é um instrumento de poder — inclusive nos balanços e nos monumentos?

Há quem diga que o tempo cura tudo. Isso é mentira. O tempo apenas arquiva. E como todo bom arquivista corporativo, também ele aprende a esconder documentos sensíveis, a maquiar resultados e a esquecer o que for inconveniente. O tempo, meus caros leitores e leitoras, é um contador treinado por décadas em alguma auditoria de reputação duvidosa. Ele não mente — apenas não lembra. E esquecer, neste mundo, é quase sempre um ato com CNPJ. Quando alguém diz que a história é escrita pelos vencedores, o que raramente se menciona é que esses vencedores têm um departamento de marketing excepcional. São capazes de transformar genocídios em episódios, chacinas em “ajustes territoriais” e apagamentos em “progresso”. É claro, ninguém gosta de conviver com o próprio passado — especialmente quando ele fede. Mas há algo ainda mais cruel do que matar: é 'deslembrar'. E o mercado, esse escultor de narrativas, é perito nisso. Esquece crises como quem arquiva e-mails. Varre escândalos com o rod...