Quando o Medo Compra e a Memória Assina
Há dias em que eu caminho pela cidade de olhos fechados — o que, convenhamos, não é exatamente uma novidade no meu caso — só para ouvir a economia falar. Ela fala pouco e cochicha muito. O ruído do mercado é um sussurro insistente: promessas sibilantes, gráficos que riem de quem não entende a piada, manchetes luminosas como vaga-lumes drogados. O dinheiro adora holofotes e, quando os holofotes faltam, ele inventa um brilho próprio. Chama-se “lembrança”. Chama-se “imagem”. Chama-se, para quem aprecia a liturgia dos termos, a tal heurística da disponibilidade: aquilo que salta mais rápido da memória é o que comanda a mão na carteira. Sei que a palavra assusta, mas não é um bicho. É uma preguiça da mente. Em vez de pensar, a cabeça procura o atalho do que está mais vívido. O susto vira régua de medir o mundo. A cena que grudou vira prova. A frase repetida vira verdade. A primeira história que chega ao ouvido reina como imperador de papel. E o investidor — sim, você, eu, nós — somos súdit...