Postagens

Quando o Medo Compra e a Memória Assina

Há dias em que eu caminho pela cidade de olhos fechados — o que, convenhamos, não é exatamente uma novidade no meu caso — só para ouvir a economia falar. Ela fala pouco e cochicha muito. O ruído do mercado é um sussurro insistente: promessas sibilantes, gráficos que riem de quem não entende a piada, manchetes luminosas como vaga-lumes drogados. O dinheiro adora holofotes e, quando os holofotes faltam, ele inventa um brilho próprio. Chama-se “lembrança”. Chama-se “imagem”. Chama-se, para quem aprecia a liturgia dos termos, a tal heurística da disponibilidade: aquilo que salta mais rápido da memória é o que comanda a mão na carteira. Sei que a palavra assusta, mas não é um bicho. É uma preguiça da mente. Em vez de pensar, a cabeça procura o atalho do que está mais vívido. O susto vira régua de medir o mundo. A cena que grudou vira prova. A frase repetida vira verdade. A primeira história que chega ao ouvido reina como imperador de papel. E o investidor — sim, você, eu, nós — somos súdit...

Roubar é Errado (Exceto Quando o Balanço Fecha)

Dizem que a mentira tem perna curta. Eu, como cega, não posso confirmar o comprimento, mas posso garantir que ela corre mais rápido do que muita verdade com preparo físico. E, no mundo financeiro, corre ainda mais depressa quando está usando sapatos de couro legítimo e paletó bem cortado. Lembro-me de uma situação que um amigo me contou anos atrás e parecia simples: elaborar um treinamento interno sobre “ética corporativa”. O título já me fez sorrir, como quem lê “diet” na embalagem de um bolo de chocolate. Ele foi chamado porque, segundo a gerência, “poucos explicam tão bem esses conceitos para a equipe”. Traduzo: poucos falam com tanta clareza coisas que precisamos fingir que acreditamos . Ele preparou um conteúdo robusto, com exemplos históricos, casos emblemáticos, dilemas reais. Mas aí veio o primeiro corte. “Talvez seja melhor suavizar”, disse a coordenadora, “para não constranger ninguém”. Tradução: não queremos que os exemplos se pareçam demais com a vida real . Ele reduziu....

O Drama É Uma Bolsa de Valores: Quanto Mais Sofrido, Mais Valorizado

Toda vez que alguém me diz que “final feliz é coisa de conto de fadas”, eu suspeito de duas possibilidades: ou essa pessoa foi criada à base de filmes dublados mal traduzidos, ou está investindo pesado na Bolsa de Sofrimento Imaginário - onde o drama rende mais do que o CDI e a lágrima tem cotação em euro. É impressionante como o mercado simbólico do mundo atual remunera melhor a dor do que a esperança. Não estou falando da dor real, física, crua, que nos dobra o corpo e a existência. Essa ninguém quer ver. Refiro-me à dor esteticamente polida, curada em barris de carvalho, exportada em forma de postagens com legenda poética e fundo pastel envelhecido. O drama virou commodity. E, como toda commodity valiosa, precisa ser escasso e espetacular: ou é trágico ou é desinteressante. Vivemos na era do final amargo gourmetizado. Da angústia com pós-graduação. Da infelicidade que desfila com cara de autenticidade. Alegrias são tratadas como produtos genéricos. Já a tristeza? Ah, essa virou ar...

Sermão no Saguão

A empresa abre a porta de vidro, põe uma frase bonita na parede, acende um aromatizador de “ética” e chama isso de cultura. Na recepção, tem um quadro com palavras que cabem em um brinde: propósito, respeito, integridade, sustentabilidade. A moça do crachá sorri como quem garante que ali dentro ninguém mente, ninguém explora, ninguém terceiriza culpa. No elevador, um executivo ensaia um discurso sobre “valor para a sociedade” como se fosse um hino nacional corporativo. Aí a realidade pede a caneta e o recibo. A Frase que Virou Senha O capitalismo moderno não foi domado por uma revolução. Foi domado por uma linguagem. Uma linguagem que parece neutra, técnica, elegante e muito “racional”: a empresa existe para maximizar valor ao acionista. O resto é desvio. O resto é sentimentalismo. O resto é agenda. Esse entendimento dominante não nasceu do nada. Ele virou mainstream porque era útil. Útil para simplificar decisões, para “justificar” corte de custo como virtude, para tratar gente co...

O Lucro Tem Boa Memória. Já os Mortos, Nem Sempre: Por que o silêncio também é um instrumento de poder — inclusive nos balanços e nos monumentos?

Há quem diga que o tempo cura tudo. Isso é mentira. O tempo apenas arquiva. E como todo bom arquivista corporativo, também ele aprende a esconder documentos sensíveis, a maquiar resultados e a esquecer o que for inconveniente. O tempo, meus caros leitores e leitoras, é um contador treinado por décadas em alguma auditoria de reputação duvidosa. Ele não mente — apenas não lembra. E esquecer, neste mundo, é quase sempre um ato com CNPJ. Quando alguém diz que a história é escrita pelos vencedores, o que raramente se menciona é que esses vencedores têm um departamento de marketing excepcional. São capazes de transformar genocídios em episódios, chacinas em “ajustes territoriais” e apagamentos em “progresso”. É claro, ninguém gosta de conviver com o próprio passado — especialmente quando ele fede. Mas há algo ainda mais cruel do que matar: é 'deslembrar'. E o mercado, esse escultor de narrativas, é perito nisso. Esquece crises como quem arquiva e-mails. Varre escândalos com o rod...

O Dividendo que Não Cai na Conta: a família como ativo que o mercado não sabe precificar

Eu não enxergo mais desde os 44, mas há um tipo de cegueira que continua me comovendo: a de quem vê tudo — relatório, meta, ranking, “performance”, “pipeline”, “entregável” — e não percebe que a própria vida está sendo administrada como um caixa de loja em liquidação permanente. O problema não é trabalhar. O problema é virar funcionário da própria ambição , com crachá emocional e senha de acesso ao pânico. Há alguns anos, num evento qualquer desses onde gente adulta finge que não precisa dormir, eu ouvi uma frase que me acompanhou como um cheiro difícil de lavar. Não foi num palco, nem num microfone, nem num discurso inspirador de alguém com sorriso de porcelana. Foi numa conversa lateral, num canto, sem plateia, que é onde a verdade costuma aparecer — sem maquiagem. Um homem (mas poderia ser uma mulher, e talvez fosse ainda mais cruel) estava falando de “crescimento”, de “expansão”, de “alavancagem”, como se a vida fosse uma planilha que pede mais colunas. Ele falava com orgulho: a...

O Eu, o Outro e o Pix: Como o mercado treina seus sentidos para vender o que você já queria comprar antes mesmo de saber

Os sentidos, dizem, são janelas para o mundo. Mas ultimamente, desconfio que estão mais para vitrine de shopping de luxo: você não vê o que há, vê o que pode ser vendido. Antes que me acusem de filosofia barata com etiqueta de boutique, aviso: sou cega. E posso garantir que os olhos mentem com a mesma desenvoltura dos algoritmos de recomendação. Enquanto todo mundo se preocupa com o que vê, ouve ou sente, pouca gente se pergunta: “Quem ensinou meu corpo a interpretar o mundo assim?” Porque, convenhamos, ninguém nasce achando uma nota de cem mais valiosa do que uma flor. Isso é um tipo de educação estética, econômica e política que a gente absorve como perfume caro: pelo ar, sem saber direito o que está inalando. E de repente, já está achando que um gráfico de projeção de crescimento é mais confiável que sua própria intuição. Mas voltemos aos sentidos. Há quem ouça “tchibum” e pense em praia. Outros ouvem “tic-tac” e sentem o tempo correndo nas veias feito boleto vencido. Eu, quando ...

O Mordomo de Silício e a Última Profissão Humana: aprender a viver quando o trabalho vira acessório

Dizem que a era do robô chegou. Eu, que perdi a visão e ganhei um radar para farsas, acho essa frase otimista demais — quase um slogan de inauguração de shopping. A era do robô não “chega”: ela vaza . Entra por baixo da porta, ocupa a sala enquanto você discute o preço do café e, quando percebe, sua rotina está sendo terceirizada para uma criatura sem cansaço, sem domingo e sem crise existencial. Acontece que nós, humanos, temos um vício antigo: achar que toda novidade é espetáculo. A tecnologia muda a estrutura do mundo e a gente responde com um misto de deslumbramento e preguiça intelectual. Um tipo de festa com música alta e extintor escondido. E é aí que mora o perigo elegante: não é o robô em si. É a nossa mania de tratar transformação histórica como se fosse tendência de vitrine . A automação não é um monstro: é um espelho (e ele não é lisonjeiro) Vamos colocar alguns números na mesa — não para bancar economista, mas para evitar o delírio. Um estudo recente da Organização Int...

Os Milionários do Tédio: Por que o dinheiro grande costuma entrar pela porta dos fundos e calça sapatos sem brilho?

Há um teatro muito simpático em curso no capitalismo contemporâneo: a plateia aplaude foguetes, aplicativos, slogans de garagem e rapazes de gola preta que prometem “disrupção” enquanto queimam caixa com a serenidade de quem acende charuto com nota alta. O mercado adora uma fantasia tecnológica, um enredo com luz azul, uma palavra em inglês e uma promessa de escala que dispense a inconveniência de dar lucro cedo demais. Enquanto isso, no canto da cena, longe do telão e do confete, alguém vende parafuso, repõe freezer, entrega legumes, abastece cozinhas, troca filtros, organiza estoque, emite boleto e dorme. No dia seguinte, acorda mais rico. No fim, o patrimônio costuma gostar mesmo é de balcão, planilha e caminhão. Tapete sem lantejoula Existe uma razão quase constrangedora para tantos negócios monótonos enriquecerem seus donos: a vida real é chata. E justamente por isso ela paga bem. As pessoas romantizam o extraordinário, mas o dinheiro grosso costuma morar na rotina. Não na rot...