Postagens

Feriado moral, segunda-feira de caixa

Tem sempre alguém na mesa dizendo que “a empresa cresce porque tem propósito”, como se propósito pagasse frete, como se valores sustentassem estoque, como se a palavra “cultura” quitasse boleto no vencimento. A cena é bonita: gente bem-intencionada, frases bem editadas, fotos bem iluminadas, e aquele ar de “somos diferentes” que o mercado ama vender — desde que o caixa não peça explicação. Só que, quando o teatro termina, a realidade assina com letra miúda. E a letra miúda, no Brasil, tem forma de recibo carimbado e saldo insuficiente. O oxigênio que ninguém posta Há um personagem que manda mais do que o diretor, mais do que o conselho, mais do que o planejamento estratégico com capa de couro: o intervalo entre vender e receber . Esse intervalo é o verdadeiro chefe. Ele não dá palestra. Ele dá falta. Capital de giro é essa coisa sem glamour que não vira foto de LinkedIn: é o ar entre a coragem de entregar e a paciência de esperar o dinheiro entrar. E “esperar” é um verbo caro. Caro do ...

A Porta Nem Sempre Leva a Algum Lugar, Mas Às Vezes Leva a Você! (por que atravessar certos portais exige mais do que um ingresso e menos do que uma selfie?)

Algumas portas não se abrem. Outras se abrem para lugar nenhum. E há aquelas que se abrem para dentro. Mas ninguém avisou que para atravessá-las seria preciso não estar de óculos escuros — mentais ou emocionais. Não me refiro à visão, veja bem. Mas ao vício do olhar superficial, distraído, treinado apenas para o que brilha. A vida, como o bom vinho e o mau investimento, revela sua verdade no fundo do copo. Aos 44 anos, quando perdi a visão, ganhei outra coisa. Não uma superação piegas nem uma iluminação mística — mas a capacidade de identificar falsos portais. Aqueles que prometem transcendência, mas entregam publicidade. Que prometem êxtase, mas vendem terapia em grupo disfarçada de planilha de autoconhecimento. São muitos. O mercado está cheio deles. Portais de alta performance, de mindset exponencial, de riqueza vibracional e outros nomes que dariam excelentes drinks em bares temáticos. Todos têm trilha sonora, taxa de inscrição, QR Code e, claro, um bônus exclusivo se você pagar...

A Carteira do Eterno: quando você trabalha e espera para investir como se o tempo fosse ilimitado

Eu adoro quando o mundo decide vestir o trabalho de virtude. Fica tudo mais bonito: quem “não para” vira exemplo, quem “descansa” vira suspeito, e sempre aparece um coro de gente ocupadíssima explicando que a vida é uma escada e que você só cai porque não “correu o suficiente”. É quase uma religião, com liturgia diária, culpa semanal e promessa de paraíso no fim do mês. Só que o tempo não aceita fé. Ele aceita calendário. E calendário não dá desconto no caixa. O relógio que não negocia Há gente que trabalha como se a vida tivesse crédito rotativo infinito. Como se o amanhã fosse um patrimônio garantido. Como se o corpo fosse um equipamento de empresa: você usa, usa, usa e, quando quebra, troca por outro. Só que o corpo não tem garantia estendida e o “outro” não chega. O mercado adora essa fantasia. Porque, quando você acredita que terá sempre tempo, você aceita quase qualquer coisa hoje. Você adia o jantar, a conversa, o médico, o silêncio, a própria casa. “Depois eu compenso”, vo...

A Moeda do Tanque: quando o mundo finge discutir petróleo, mas está brigando pelo recibo

Eu adoro quando a economia se fantasia de moral. Fica tudo mais fotogênico: “o bem” de um lado, “o mal” do outro, e um coro de especialistas com voz de telejornal explicando que o problema é “a instabilidade”, “a intolerância”, “a ameaça civilizacional” — como se o planeta fosse uma peça de teatro mal ensaiada. Só que quase toda grande briga internacional começa exatamente onde a poesia termina: no recibo. Não é o petróleo em si que enlouquece o mundo. É a pergunta miúda, prosaica e indecente: quem assina a nota , com qual caneta — e em que moeda . O truque do mundo moderno: transformar necessidade em religião Petróleo (e qualquer energia que mova o cotidiano) não é mercadoria comum. Ele tem uma qualidade que nenhum discurso motivacional consegue falsificar: a demanda é teimosa. Você pode cancelar streaming, cortar o brunch, virar minimalista de aplicativo. Mas, quando transporte e energia sobem, até a sua filosofia acorda com dor na lombar. O mundo, que não é bobo, fez da energia ...

Quando o Número Mente, Mas o Caráter Grita

Alguns investem em gráficos e dicas. Outros, em pessoas. E há quem jure que o número é a única verdade confiável do mercado. Esses, geralmente, acabam chorando em silêncio quando a planilha quebra o coração. Porque o número, coitado, não passa de um reflexo temporário — às vezes maquiado, às vezes bêbado, quase sempre cego para o que realmente importa: a qualidade da história por trás da conta. A maioria dos balanços brilha como vitrine de joalheria: luz calculada, vidro polido, exposição cirúrgica do que convém mostrar. E, ainda assim, há quem entre nesses estabelecimentos de lucros decorativos achando que está adquirindo solidez. Spoiler: está comprando vitrines. Não, meu bem, a verdadeira riqueza não se revela na rentabilidade trimestral, mas na firmeza de propósito de quem segura o timão do barco — mesmo quando o mar muda de humor. Investir, no fim das contas, é escolher quem você quer que pilote seu navio enquanto você cochila confiando que acordará em terra firme. A Arte Esqu...

Estatística, Sal Grosso e a Ilusão de Controle (como o mercado trocou os rituais por planilhas, sem jamais deixar de acreditar em milagres?)

Eu cresci ouvindo que não se varre a casa depois das seis da tarde. Nem se canta na cozinha — muito menos de costas. Que cruzar pernas enquanto reza bloqueia a graça. Que manga com leite mata. Que espelho quebrado dura sete anos e promessa feita na chuva gruda que nem urucubaca. Eu não acreditava em nada disso, é claro. Mas — veja bem — também não duvidava por completo. Afinal, tem coisa que a gente não entende, e tudo que a gente não entende, cedo ou tarde, vai parar na prateleira do medo. Foi assim com a tempestade, com a fertilidade, com o amor não correspondido — e agora com o risco financeiro. Sim, risco. Aquela entidade moderna com cara de fórmula matemática, que ninguém viu, ninguém segurou, mas que ronda as decisões dos investidores como um espírito meio debochado: aparece quando você se acha mais preparado. Enquanto minha avó benzia criança com infusão de arruda e pétalas de rosa, o mercado hoje benze portfólio com modelo estocástico. E a diferença entre os dois, francamente...

Portfólio de Vida: Como Diversificar o que Não Cabe na Planilha

Dizem que dinheiro não compra felicidade. Que graça teria a felicidade, se desse para parcelar em doze vezes sem juros? Prefiro a versão menos piedosa e mais útil: dinheiro compra silêncio. Silêncio para as urgências que gritam, para as contas que latem, para as madrugadas em que a cabeça faz barulho. Dinheiro compra a pausa em que se decide sem pânico. O resto — sentido, amor, liberdade de dizer “não” — precisa de outras moedas. É por isso que eu não abro os olhos: quem precisa abrir os olhos é o dinheiro. Ele que aprenda, de uma vez, que o objetivo não é se exibir na tela com números gordos, mas sustentar o palco onde a vida acontece sem microfonia. Aprendi — tropeçando com elegância — que a vida funciona como uma carteira bem montada: há ativos que dão retorno lento, outros que sobem e descem como elevador de prédio antigo, e alguns que parecem promissores na vitrine, mas murcham no primeiro uso. Não estou falando de ações ou títulos; estou falando de escolhas. Trabalho, família, c...

Fique Parado (mas com Elegância): Sobre o Delicado Prazer de Não Fazer Nada Quando Todos Estão Gritando "Compra!"

Há um ditado tibetano que não entra nas planilhas nem nos stories motivacionais: “Não se atravessa um rio movendo-se com a corrente — atravessa-se quando a água baixa e os pés encontram o chão.” Simples, direto, e como toda sabedoria ancestral, assustadoramente lúcido. Foi lembrando dessa máxima que decidi escrever este texto. Enquanto os feeds se enchem de foguetes apontando para os céus da Bolsa, carteiras vestidas com brilho de alta performance e investidores performando vídeos no TikTok com a empolgação de uma criança que descobriu o botão da máquina de chicletes, eu optei por fazer o impensável: parar. Sim, parei. Não vendi, não comprei, não reorganizei a carteira, não revisei o “preço justo” das minhas queridas ações. Apenas fiquei quieta. E se você quer saber, foi uma das decisões mais sofisticadas que já tomei com meu dinheiro. Mais ainda: foi uma decisão espiritual. Porque “parar” é diferente de “não fazer nada”. E essa diferença, meu caro leitor ansioso, vale mais que uma ...

O Último Silêncio Antes do Pop-Up (e por que isso pode ajudar investidores?)

De todas as revoluções possíveis no século XXI — a digital, a genética, a climática e a das figurinhas animadas — talvez a mais urgente seja esta: reaprender a permanecer. Permanecer no parágrafo. Na ideia. Na frase que não entrega tudo de bandeja, mas exige um gole de tempo e dois de atenção. Permanecer mesmo quando o celular tilinta, o relógio vibra e o mundo sussurra que pensar demais é improdutivo. Porque ler — eu digo ler de verdade, com o fígado e não com a digital — virou, sim, um ato subversivo. E não falo aqui de decorar jargões de coach ou folhear livros coloridos com resumos prontos. Falo da leitura que desafia a pressa e espanca o algoritmo. Aquela que desorganiza certezas e, por isso mesmo, reorganiza o pensamento. Mas quem ainda lê assim? A Falência do Foco Parcelado Hoje, para ler um parágrafo inteiro, é preciso vencer uma maratona de estímulos: banners piscando, vídeos que prometem mudar sua vida em 14 segundos e alertas de promoções que nunca te promovem a nada a...