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Cabelos de Prata, Contratos Cegos

Há um certo pudor na maneira como falamos de envelhecer. O mercado usa eufemismos vistosos, promete vitalidade em frascos caros, vende “energia” em cápsulas e chama gente com cabelos de prata de “novo público premium”, como se trocando o rótulo resolvesse-se o conteúdo. Enquanto isso, o aplicativo do banco pede “sorria para a câmera” como se a vida fosse um vestibular de beleza biométrica; a tela brilha, mas a dignidade apaga. Eu, que perdi a visão aos 44 e ganhei ironia em dobro, digo sem cerimônia: quem precisa abrir os olhos não sou eu — é o dinheiro. A demografia não é opinião: há mais gente vivendo mais tempo, e vivendo melhor ali onde a liberdade não é apenas o direito de sair à rua, mas o de acessar o próprio saldo sem peregrinação digital. Há uma transformação silenciosa que não cabe no estereótipo do “jovem investidor que aprende cedo”: ela exige outro repertório, outra arquitetura de processos, um respeito que não vem no pacote de slides. Longevidade não é “nicho”; é o novo ...

Quando o dinheiro corre demais, alguém está vendendo a saída: A inteligência artificial, o entusiasmo do mercado e a velha arte de não pagar caro por uma fantasia bem iluminada

O mundo financeiro adora se fantasiar de moral. Veste terno de prudência, passa perfume de inovação, sobe ao palco com voz grave e anuncia que estamos diante de uma nova era, daquela espécie que sempre exige urgência, capital abundante e suspensão temporária do bom senso. A plateia aplaude. Os bancos sorriem. Os relatórios engrossam. A palavra “disrupção” entra pela porta da frente como se tivesse pago ingresso VIP. No fim, alguém fica segurando um recibo amassado no balcão. E recibo, ao contrário de promessa, não aceita edição posterior. Luz demais A inteligência artificial é real. Convém começar por aí, antes que algum sacerdote da euforia me acuse de heresia tecnológica e mande me queimar numa fogueira feita de apresentações corporativas. A IA já transforma rotinas, acelera códigos, reorganiza escritórios, invade diagnósticos, escreve atas, resume contratos, sugere imagens, erra com confiança e acerta com uma eficiência que incomoda. Negar isso seria como negar a eletricidade porque...

O Ego Não Tira Férias: E Ainda Faz Check-in no Grupo da Firma

A primeira coisa que se aprende depois de perder a visão é que o 'silêncio de imagens' pode ser generoso. Um bom silêncio tem a decência de não se intrometer. Não pisca, não abana, não manda “figura motivacional”. Um bom silêncio respeita até o que você ainda não entendeu sobre si mesma. Já o exibicionismo travestido de empatia, esse sim é cego — mas no pior sentido: invasivo, tagarela e vestido com colete fluorescente escrito “só quero ajudar”. Vivemos a era da empatia com ponto de exclamação. Do conselho que ninguém pediu. Do compartilhamento compulsivo de luz, foco e gratidão — como se o mundo inteiro tivesse aberto vaga para coach espiritual, terapeuta sem CRM e missionário da paz universal. Todo “chato premium” é assim: oferece opinião com a generosidade de quem distribui panfleto de promoção vencida. O problema? Você não pediu panfleto nenhum. Está ali, no seu canto, tentando sobreviver ao mês com duas dívidas, um boleto e um débito automático que parece ter vida própria...

Quando o Medo Compra e a Memória Assina

Há dias em que eu caminho pela cidade de olhos fechados — o que, convenhamos, não é exatamente uma novidade no meu caso — só para ouvir a economia falar. Ela fala pouco e cochicha muito. O ruído do mercado é um sussurro insistente: promessas sibilantes, gráficos que riem de quem não entende a piada, manchetes luminosas como vaga-lumes drogados. O dinheiro adora holofotes e, quando os holofotes faltam, ele inventa um brilho próprio. Chama-se “lembrança”. Chama-se “imagem”. Chama-se, para quem aprecia a liturgia dos termos, a tal heurística da disponibilidade: aquilo que salta mais rápido da memória é o que comanda a mão na carteira. Sei que a palavra assusta, mas não é um bicho. É uma preguiça da mente. Em vez de pensar, a cabeça procura o atalho do que está mais vívido. O susto vira régua de medir o mundo. A cena que grudou vira prova. A frase repetida vira verdade. A primeira história que chega ao ouvido reina como imperador de papel. E o investidor — sim, você, eu, nós — somos súdit...

Roubar é Errado (Exceto Quando o Balanço Fecha)

Dizem que a mentira tem perna curta. Eu, como cega, não posso confirmar o comprimento, mas posso garantir que ela corre mais rápido do que muita verdade com preparo físico. E, no mundo financeiro, corre ainda mais depressa quando está usando sapatos de couro legítimo e paletó bem cortado. Lembro-me de uma situação que um amigo me contou anos atrás e parecia simples: elaborar um treinamento interno sobre “ética corporativa”. O título já me fez sorrir, como quem lê “diet” na embalagem de um bolo de chocolate. Ele foi chamado porque, segundo a gerência, “poucos explicam tão bem esses conceitos para a equipe”. Traduzo: poucos falam com tanta clareza coisas que precisamos fingir que acreditamos . Ele preparou um conteúdo robusto, com exemplos históricos, casos emblemáticos, dilemas reais. Mas aí veio o primeiro corte. “Talvez seja melhor suavizar”, disse a coordenadora, “para não constranger ninguém”. Tradução: não queremos que os exemplos se pareçam demais com a vida real . Ele reduziu....

O Drama É Uma Bolsa de Valores: Quanto Mais Sofrido, Mais Valorizado

Toda vez que alguém me diz que “final feliz é coisa de conto de fadas”, eu suspeito de duas possibilidades: ou essa pessoa foi criada à base de filmes dublados mal traduzidos, ou está investindo pesado na Bolsa de Sofrimento Imaginário - onde o drama rende mais do que o CDI e a lágrima tem cotação em euro. É impressionante como o mercado simbólico do mundo atual remunera melhor a dor do que a esperança. Não estou falando da dor real, física, crua, que nos dobra o corpo e a existência. Essa ninguém quer ver. Refiro-me à dor esteticamente polida, curada em barris de carvalho, exportada em forma de postagens com legenda poética e fundo pastel envelhecido. O drama virou commodity. E, como toda commodity valiosa, precisa ser escasso e espetacular: ou é trágico ou é desinteressante. Vivemos na era do final amargo gourmetizado. Da angústia com pós-graduação. Da infelicidade que desfila com cara de autenticidade. Alegrias são tratadas como produtos genéricos. Já a tristeza? Ah, essa virou ar...

Sermão no Saguão

A empresa abre a porta de vidro, põe uma frase bonita na parede, acende um aromatizador de “ética” e chama isso de cultura. Na recepção, tem um quadro com palavras que cabem em um brinde: propósito, respeito, integridade, sustentabilidade. A moça do crachá sorri como quem garante que ali dentro ninguém mente, ninguém explora, ninguém terceiriza culpa. No elevador, um executivo ensaia um discurso sobre “valor para a sociedade” como se fosse um hino nacional corporativo. Aí a realidade pede a caneta e o recibo. A Frase que Virou Senha O capitalismo moderno não foi domado por uma revolução. Foi domado por uma linguagem. Uma linguagem que parece neutra, técnica, elegante e muito “racional”: a empresa existe para maximizar valor ao acionista. O resto é desvio. O resto é sentimentalismo. O resto é agenda. Esse entendimento dominante não nasceu do nada. Ele virou mainstream porque era útil. Útil para simplificar decisões, para “justificar” corte de custo como virtude, para tratar gente co...

O Lucro Tem Boa Memória. Já os Mortos, Nem Sempre: Por que o silêncio também é um instrumento de poder — inclusive nos balanços e nos monumentos?

Há quem diga que o tempo cura tudo. Isso é mentira. O tempo apenas arquiva. E como todo bom arquivista corporativo, também ele aprende a esconder documentos sensíveis, a maquiar resultados e a esquecer o que for inconveniente. O tempo, meus caros leitores e leitoras, é um contador treinado por décadas em alguma auditoria de reputação duvidosa. Ele não mente — apenas não lembra. E esquecer, neste mundo, é quase sempre um ato com CNPJ. Quando alguém diz que a história é escrita pelos vencedores, o que raramente se menciona é que esses vencedores têm um departamento de marketing excepcional. São capazes de transformar genocídios em episódios, chacinas em “ajustes territoriais” e apagamentos em “progresso”. É claro, ninguém gosta de conviver com o próprio passado — especialmente quando ele fede. Mas há algo ainda mais cruel do que matar: é 'deslembrar'. E o mercado, esse escultor de narrativas, é perito nisso. Esquece crises como quem arquiva e-mails. Varre escândalos com o rod...

O Dividendo que Não Cai na Conta: a família como ativo que o mercado não sabe precificar

Eu não enxergo mais desde os 44, mas há um tipo de cegueira que continua me comovendo: a de quem vê tudo — relatório, meta, ranking, “performance”, “pipeline”, “entregável” — e não percebe que a própria vida está sendo administrada como um caixa de loja em liquidação permanente. O problema não é trabalhar. O problema é virar funcionário da própria ambição , com crachá emocional e senha de acesso ao pânico. Há alguns anos, num evento qualquer desses onde gente adulta finge que não precisa dormir, eu ouvi uma frase que me acompanhou como um cheiro difícil de lavar. Não foi num palco, nem num microfone, nem num discurso inspirador de alguém com sorriso de porcelana. Foi numa conversa lateral, num canto, sem plateia, que é onde a verdade costuma aparecer — sem maquiagem. Um homem (mas poderia ser uma mulher, e talvez fosse ainda mais cruel) estava falando de “crescimento”, de “expansão”, de “alavancagem”, como se a vida fosse uma planilha que pede mais colunas. Ele falava com orgulho: a...