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O lucro precisa merecer o próprio nome

O mundo corporativo adora entrar em cena fantasiado de virtude. De um lado, executivos prometem crescimento, transformação e legado. Do outro, conselheiros aprovam apresentações nas quais toda despesa virou investimento, todo atraso virou aprendizado e qualquer resultado abaixo do esperado recebeu o delicado nome de “normalização operacional”. No centro do palco, o lucro é convocado como testemunha de defesa: se apareceu, a gestão foi brilhante; se sumiu, a culpa pertence ao câmbio, ao clima, ao governo, ao consumidor ou a Mercúrio retrógrado. Depois da reunião, alguém recolhe os copos de plástico e confere se a conta fechou. O placar necessário O lucro tem uma função insubstituível. Ele mostra se a organização conseguiu entregar bens ou serviços por um valor superior aos recursos consumidos para produzi-los. Parece simples porque a contabilidade, quando bem-feita, tem a elegância de transformar quilômetros de decisões em algumas linhas. Receita, custos, despesas, impostos e resultado....

A aposentadoria não avisa quando chega. Só começa a tirar os móveis do lugar

O mundo adora vestir a aposentadoria com roupas de domingo. Um casal grisalho caminha na praia, o céu permanece eternamente dourado, ninguém tem artrose, os filhos telefonam espontaneamente e o dinheiro brota de uma fonte discreta, administrada por uma senhora sorridente de blazer bege. Depois vêm as palavras “liberdade”, “merecimento” e “nova fase”, enquanto um violino higienizado toca ao fundo. Na vida real, a aposentadoria costuma chegar com uma senha do Meu INSS, três planilhas incompatíveis e uma consulta médica cujo recibo você guarda porque já não confia nem na memória nem no plano de saúde. A geração do “eu me viro” Há uma faixa da população brasileira que atravessou a vida inteira resolvendo problemas sem transformar cada dificuldade em conteúdo motivacional. São os quarentões-altos, os cinquentões já instalados e os recém-sessentões que aprenderam a trabalhar antes de aprender a descansar. Gente que viu a inflação comer o salário antes do almoço, guardou dinheiro em cader...

Quando a crença vale mais do que a empresa

  O mundo financeiro gosta de se apresentar vestido para uma cerimônia moral. De um lado, os prudentes, disciplinados e responsáveis. Do outro, os perdulários, os imprudentes e aquela gente suspeita que aparentemente acorda cedo apenas para comprometer o futuro fiscal da humanidade. No centro do palco, economistas, gestores e comentaristas ajeitam a gravata da virtude enquanto explicam quem merece crédito, quem deve apertar o cinto e quem precisa sofrer um pouco mais para que a planilha recupere sua autoestima. No fim da palestra, alguém guarda o recibo, pega a caneta emprestada e pergunta onde valida o estacionamento. Ideias de uniforme André Lara Resende escreveu sobre a persistência de crenças econômicas que sobrevivem mesmo quando a lógica, a experiência histórica e o funcionamento concreto do sistema financeiro já lhes retiraram o chão. Entre elas está a velha noção de que o investimento dependeria necessariamente de uma poupança previamente acumulada, como se cada fábrica pre...

O Minuto é um Mentiroso, e a Bolsa Adora um Fofoqueiro...

Eu não vejo gráficos. E, ainda assim, vejo o suficiente para afirmar uma coisa que vai irritar os devotos do “alerta em tempo real”: o minuto é um mentiroso profissional . Ele vive de escândalo. Ele precisa de drama. Ele precisa de alguém que aperte “atualizar” como quem puxa a cordinha da descarga — só para sentir que alguma coisa se moveu no mundo. O minuto não é um calendário: é um fofoqueiro com crachá , correndo pelos corredores do mercado, sussurrando “subiu”, “caiu”, “virou”, “azulou”, “azedou”, “pânico”, “euforia”, como se a vida inteira coubesse numa vírgula. E a gente… a gente acredita. Porque há um prazer primitivo em confundir movimento com destino. Mas se o minuto é um mentiroso, o longo prazo é um contador de histórias : lento, repetitivo, meio tedioso, e por isso mesmo verdadeiro. Ele não grita. Ele não vibra no seu bolso. Ele não pede desculpas. Só trabalha. E é aí que mora a grande perversão: quanto mais você olha, menos você entende . A Bolsa é uma praia: quem ent...

A Sala de Troféus também Acumula Poeira

No Brasil, empresa gosta de herança como gente gosta de cristaleira: fica bonita na foto e ninguém mexe. Na parede do hall, o retrato do fundador observa tudo com a serenidade de quem nunca precisou lidar com planilha de risco, sucessão e conflito de agência ao mesmo tempo. No discurso anual, a palavra “família” aparece como se fosse selo de qualidade moral. Na prática, às vezes é. Às vezes é só um cofre com vaidade. Aí o mundo real pede a assinatura no contrato e uma caneta emprestada. Ação não é Volante Existe uma confusão bem brasileira, e ela é elegante: achar que controlar é o mesmo que administrar. Não é. Controlar é escolher o rumo, o destino, o limite do risco e a filosofia de capital. Administrar é acordar todo dia para resolver cinquenta variáveis ao mesmo tempo, sem a bênção do “isso sempre foi assim”. Uma é função de propriedade. A outra é função de execução. E eu não estou demonizando família empresária, antes que alguém já pegue a tocha e o teclado. Família pode ser u...

Cabelos de Prata, Contratos Cegos

Há um certo pudor na maneira como falamos de envelhecer. O mercado usa eufemismos vistosos, promete vitalidade em frascos caros, vende “energia” em cápsulas e chama gente com cabelos de prata de “novo público premium”, como se trocando o rótulo resolvesse-se o conteúdo. Enquanto isso, o aplicativo do banco pede “sorria para a câmera” como se a vida fosse um vestibular de beleza biométrica; a tela brilha, mas a dignidade apaga. Eu, que perdi a visão aos 44 e ganhei ironia em dobro, digo sem cerimônia: quem precisa abrir os olhos não sou eu — é o dinheiro. A demografia não é opinião: há mais gente vivendo mais tempo, e vivendo melhor ali onde a liberdade não é apenas o direito de sair à rua, mas o de acessar o próprio saldo sem peregrinação digital. Há uma transformação silenciosa que não cabe no estereótipo do “jovem investidor que aprende cedo”: ela exige outro repertório, outra arquitetura de processos, um respeito que não vem no pacote de slides. Longevidade não é “nicho”; é o novo ...

Quando o dinheiro corre demais, alguém está vendendo a saída: A inteligência artificial, o entusiasmo do mercado e a velha arte de não pagar caro por uma fantasia bem iluminada

O mundo financeiro adora se fantasiar de moral. Veste terno de prudência, passa perfume de inovação, sobe ao palco com voz grave e anuncia que estamos diante de uma nova era, daquela espécie que sempre exige urgência, capital abundante e suspensão temporária do bom senso. A plateia aplaude. Os bancos sorriem. Os relatórios engrossam. A palavra “disrupção” entra pela porta da frente como se tivesse pago ingresso VIP. No fim, alguém fica segurando um recibo amassado no balcão. E recibo, ao contrário de promessa, não aceita edição posterior. Luz demais A inteligência artificial é real. Convém começar por aí, antes que algum sacerdote da euforia me acuse de heresia tecnológica e mande me queimar numa fogueira feita de apresentações corporativas. A IA já transforma rotinas, acelera códigos, reorganiza escritórios, invade diagnósticos, escreve atas, resume contratos, sugere imagens, erra com confiança e acerta com uma eficiência que incomoda. Negar isso seria como negar a eletricidade porque...