Feriado moral, segunda-feira de caixa
Tem sempre alguém na mesa dizendo que “a empresa cresce porque tem propósito”, como se propósito pagasse frete, como se valores sustentassem estoque, como se a palavra “cultura” quitasse boleto no vencimento. A cena é bonita: gente bem-intencionada, frases bem editadas, fotos bem iluminadas, e aquele ar de “somos diferentes” que o mercado ama vender — desde que o caixa não peça explicação.
Só que, quando o teatro termina, a realidade assina com letra miúda.
E a letra miúda, no Brasil, tem forma de recibo carimbado e saldo insuficiente.
O oxigênio que ninguém posta
Há um personagem que manda mais do que o diretor, mais do que o conselho, mais do que o planejamento estratégico com capa de couro: o intervalo entre vender e receber. Esse intervalo é o verdadeiro chefe. Ele não dá palestra. Ele dá falta.
Capital de giro é essa coisa sem glamour que não vira foto de LinkedIn: é o ar entre a coragem de entregar e a paciência de esperar o dinheiro entrar. E “esperar” é um verbo caro. Caro do tipo que não aceita parcelamento.
Porque a folha de pagamento não tem maturidade espiritual. O imposto não medita. O aluguel não acredita em “jornada de transformação”. A energia elétrica não está nem aí para a sua missão. Ela quer o número do boleto. E quer hoje.
Quando a empresa confunde crescimento com faturamento, ela vira uma atleta sem pulmão: corre, corre, corre — e desmaia no caixa.
Venda não é dinheiro, é promessa
Eu sei que isso machuca o ego de quem “bateu meta”. Mas vamos falar como adultos: venda a prazo é uma promessa com roupa de documento. Você entrega o produto, emite papel, aperta mãos, recebe elogio, e volta para a empresa com um belo pacote de… futuro.
E futuro, meu caro leitor, minha cara leitora, não paga fornecedor.
No meio desse caminho mora a fauna completa do mundo real: a inadimplência do cliente, a contestação, o “não recebi”, o “veio errado”, o “vamos negociar”, o “paga mês que vem”, o “meu financeiro está de férias”, o “o sistema caiu”. O mundo tem uma criatividade infinita para atrasar dinheiro alheio.
Aí a empresa faz o que qualquer organismo faz quando falta ar: corre para onde tem oxigênio. Banco. Mercado de recebíveis. Antecipação. Desconto. Trava. Qualquer nome serve, desde que transforme “vou receber” em “tenho agora”.
E é aqui que a moral aparece vestida de indignação: “como assim eu vou pagar por dinheiro que já é meu?”
Como assim? Assim: o tempo custa. E custa mais quando o risco é alto, a cobrança é difícil e o sistema gosta de complicar o óbvio.
O tempo não é neutro. É agiota elegante.
Existe um fetiche curioso no Brasil: a ideia de que “tempo” é só calendário. Não é. Tempo é um ativo. E, quando você precisa dele emprestado, ele cobra.
A antecipação de recebíveis, na prática, é isso: trocar uma promessa de amanhã por dinheiro hoje. O intermediário te dá o hoje e fica com um pedaço do amanhã. Parece injusto quando você olha do ponto de vista emocional. Parece inevitável quando você olha do ponto de vista operacional.
Porque não se precifica só a espera. Precifica-se o risco de o amanhã não chegar como prometido. Precifica-se o trabalho invisível de checar, registrar, monitorar e cobrar. Precifica-se a dor de cabeça que ninguém quer ter quando o pagador final decide “sumir com educação”.
E aqui vai uma ironia de luxo: quanto mais o país finge que crédito é só “taxa”, mais o crédito vira um labirinto de custos. O problema raramente é uma linha. É um emaranhado.
Então é para odiar banco?
Não, meu bem. Ódio é energia desperdiçada e, além disso, banco não se ofende. Banco só recalcula.
Eu também não vou cantar hino para banco, porque eu tenho amor-próprio. Mas eu vou ser justa: crédito de curto prazo não é “malvadeza” por natureza. Ele é um serviço. Só que, no Brasil, muitas vezes, é um serviço caro demais para virar ponte. Vira castigo.
A pergunta adulta não é “quem é o vilão?”. A pergunta adulta é: por que o ar é tão caro? Por que o simples intervalo entre vender e receber tem preço de drama? Por que a empresa, que está gerando valor real, precisa pagar tão caro para sobreviver ao calendário?
E é nesse ponto que o debate fica menos romântico e mais útil: não adianta falar em produtividade, inovação, empreendedorismo e futuro se o presente é uma tortura de caixa. A empresa não morre em tese. Ela morre em decisão: não contrata, não estoca, não amplia prazo, não investe. Recuo por falta de fôlego, não por falta de mercado.
Crescimento, no Brasil, muitas vezes é um esporte para quem já tem pulmão — ou para quem tem acesso a oxigênio mais barato.
O investidor que só olha lucro é turista
Agora deixa eu puxar você para o lado mais desconfortável: o do investidor e da investidora que juram amar “fundamentos”, mas ficam hipnotizados pelo lucro do trimestre como se fosse horóscopo.
Tem coisa mais sedutora do que um lucro bonito? Só duas: um lucro bonito com discurso bonito e um lucro bonito com dividendo pingando. Só que o investidor maduro aprende cedo: lucro sem caixa é poesia em papel molhado.
Você quer saber se uma empresa é saudável? Pergunte a ela, sem cerimônia: você consegue pagar suas contas sem fazer malabarismo?
Porque há empresas que “dão lucro” e vivem pedindo ar. E, quando o ar fica caro, elas fazem o que dá para fazer: rodam dívida, alongam prazo, empurram fornecedor, vendem recebível, trocam a dor de hoje pela dor maior de amanhã.
O problema não é usar crédito. O problema é precisar dele para existir.
Parte do investidor: mapear risco, não torcer
Se você investe em ações — ou pensa em investir — precisa parar de torcer por narrativa e começar a mapear risco de caixa. Não para virar fiscal de planilha, mas para evitar o básico: comprar empresa que vive no fio do oxigênio.
Por quê? Porque caixa frágil não quebra só empresa. Quebra decisão. E empresa em modo sobrevivência toma decisões ruins com cara de inevitáveis.
Então, ao olhar uma companhia, pergunte-se:
Caixa e equivalentes: há folga ou há maquiagem?
Dívida de curto prazo: o vencimento está confortável ou é uma fila de boletos?
Custo da dívida: a empresa paga caro para existir?
Geração de caixa operacional: a operação sustenta a operação ou vive de “ajustes”?
Capital de giro: o dinheiro fica preso em estoque e contas a receber?
Dependência de antecipação: isso é ferramenta ou muleta crônica?
Se essas perguntas parecem “chatas”, lembre-se: o mercado pune com elegância. Ele não grita. Ele desconta no preço.
E aqui vai o fecho: empresa saudável não é a que nunca usa crédito; é a que não vira refém do crédito para respirar.
O país que trata capital de giro como pecado
Agora, um corte de cenário. O Brasil adora discutir taxa básica, câmbio, inflação, e até discute “ambiente de negócios” com aquela fé de quem acha que um seminário resolve tudo. Mas capital de giro — esse cotidiano sujo e decisivo — vira assunto de rodapé, como se fosse problema pequeno.
Só que não é pequeno. É estrutural.
Quando o curto prazo é caro demais, você cria um país em que cresce quem já nasceu grande, ou quem tem relacionamento, ou quem tem acesso, ou quem tem garantias. O resto fica no limbo: empresa com produto bom, gente boa, mercado bom — e caixa frágil. Resultado? Um ecossistema de oportunidades capadas por calendário.
Política pública séria para capital de giro não é slogan. É engenharia institucional: mais rastreabilidade, mais segurança jurídica, mais transparência de custo total, mais concorrência real no crédito, mais eficiência operacional. O tipo de coisa que ninguém põe em camiseta, mas que muda a vida de quem produz.
E aqui vai minha ironia preferida: o Brasil ama a palavra “empreendedor” — desde que o empreendedor pague o preço de respirar. Chamam de liberdade. Eu chamo de sadismo econômico com terno e crachá.
A meritocracia do caixa
A empresa brasileira vive numa meritocracia peculiar: você pode ser competente, ter cliente, ter produto, ter equipe — mas, se o caixa não aguenta o tempo, você perde. Perde não porque foi ruim. Perde porque o relógio foi mais forte.
E o relógio é impiedoso, porque ele não te dá tempo para explicar que “o recebimento está previsto”. Previsto não é pago. Previsto é esperança com data.
No fim das contas, o mercado não premia só quem vende. Ele premia quem sobrevive ao intervalo. E esse intervalo é onde mora a verdade: a saúde de uma empresa, a decência de um sistema, e o grau de maturidade de um investidor.
A martelada final
Então eu te deixo duas perguntas, do tipo que não dá para responder com meme:
Você está investindo em empresa que gera caixa… ou em empresa que coleciona promessas?
E, se o país quiser crescer sem virar refém de torcida, quando vai tratar capital de giro como ponte — e não como castigo?
Porque, no fim, caixa não é glamour. Caixa é consequência.
E quando a consequência chega, ela não pede licença: fecha a caixa registradora.
— Ho-kei Dube
Para quem quiser ir além (sem virar refém de torcida)
- Senta que lá vem história:
O que é duplicata (na vida real, não no folclore)
Duplicata mercantil é um título de crédito ligado a uma venda a prazo (mercadoria/serviço entregue, cobrança futura). No Brasil, ela existe formalmente desde a Lei nº 5.474/1968, que disciplina a duplicata de compra e venda mercantil.
Nos últimos anos, houve modernização importante: a Lei nº 13.775/2018 criou e organizou a figura da duplicata escritural (registrada/eletrônica, com escrituração em sistemas autorizados), justamente para reduzir fraudes, melhorar rastreabilidade e dar mais segurança a quem financia recebíveis.
Tradução simples (método H. Dube):
Duplicata é um “eu te vendo hoje e você me paga depois” que pode virar um documento formalmente negociável.O que é “desconto de duplicata”
Desconto de duplicata é uma operação em que a empresa antecipa o dinheiro que só entraria no futuro (quando o cliente pagar). O banco (ou instituição financeira) adianta os recursos e cobra:
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juros pelo tempo até o vencimento,
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tarifas/encargos (dependendo do contrato),
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e, quando aplicável, IOF (imposto) na operação de crédito.
Tradução H. Dube:
É “trocar uma promessa de receber amanhã por dinheiro hoje”, pagando um preço por isso.Alguém ainda faz isso hoje?
Sim — e muitas vezes nem chamam assim. Chamam de antecipação de recebíveis, desconto de recebíveis, trava de recebíveis, etc. A lógica é a mesma: transformar venda a prazo em caixa agora. E o Banco Central acompanha taxas por modalidades de crédito (incluindo modalidades ligadas a recebíveis) justamente porque isso continua relevante no mercado.
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Banco Central do Brasil — Estatísticas monetárias e de crédito (para entender o custo do dinheiro na prática): https://www.bcb.gov.br/estatisticas
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — Informações sobre companhias abertas e documentos públicos: https://www.gov.br/cvm/pt-br
Lei da duplicata escritural (para quem gosta de ver como o “papel” virou trilha digital): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13775.htm
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