Manual Prático de Emburrecimento em Massa — Agora com CNPJ e Fundo de Investimento: Por que a burrice rentável nunca foi um privilégio das novas gerações?
Costumo ouvir, com certa frequência, que o mundo está emburrecendo. A cada geração, os mais velhos sussurram com pesar e convicção: “no meu tempo...” — e a frase vem seguida de uma ode à caneta azul, à paciência com a tabuada, ao respeito aos mais velhos e ao gosto por livros sem figuras. Para esses arqueólogos do próprio umbigo, o mundo desandou justamente no exato momento em que eles deixaram de entender os botões do controle remoto.
Ora, me poupem.
Ou melhor: me invistam.
A ideia de que as novas gerações são mais burras não é apenas preguiçosa — ela é extraordinariamente conveniente. Porque transfere para os ombros dos netos a ruína que começou nos investimentos dos avôs. E o mais curioso: os que defendem essa tese não hesitam em comprar criptomoeda por indicação de sobrinho, instalar aplicativo de IA para “ver como seria seu rosto em 1800” e postar sua indignação sobre a ignorância alheia com erros de português em letras garrafais. A decadência sempre é do outro.
O Álibi da Nostalgia
É claro que há transformações. As pessoas leem menos livros, sim. Mas leem mais telas, mais legendas, mais mensagens. Aprenderam a fazer piadas com emojis e a sintetizar argumentos em 280 caracteres — e você pode até achar isso empobrecedor, mas é preciso uma inteligência danada para condensar uma crítica social inteira em um meme de três linhas com um cachorro usando óculos.
Repare: quando alguém diz que o mundo está ficando burro, raramente está falando de si. “Nós” sabemos tudo; “eles”, os jovens, os outros, é que não prestam. E, no entanto, foram “nós” que elegemos figuras políticas risíveis, espalhamos corrente de WhatsApp dizendo que vinagre cura doença respiratória, e acreditamos em empresa que prometia 1% ao dia em rendimentos — mas era só mais uma pirâmide travestida de ‘liberdade financeira’.
Inteligência, veja bem, não é um item de prateleira que se esgota. É uma coreografia que muda o ritmo conforme o som. E o som, neste século, tem remix, tem ruído, tem velocidade. Quem ainda dança valsa e acusa os outros de estarem fora do compasso talvez só esteja com o fone desligado.
Testes de QI e Outras Bobagens com Etiqueta de Ciência
Querem medir a inteligência das novas gerações com testes formulados por adultos do século passado, que mal sabiam o que era internet? Pois eu proponho outro desafio: pegue um adolescente aleatório, entregue um novo celular em outro idioma e veja quanto tempo ele leva para desvendar tudo. Agora tente pedir a um adulto da era analógica para configurar o próprio roteador. Spoiler: ele vai tentar soprar o cabo.
Estamos confundindo inteligência com fidelidade ao que já conhecemos. Um erro comum entre investidores também. É quando você só reconhece valor no que já compreendeu — e, por isso, ignora o que não consegue decifrar. Chama de bolha aquilo que desafia sua lente. Vende barato o que não entende. Compra caro o que foi capa de revista.
Não existe inteligência fora do tempo em que ela habita. A mente afiada de ontem pode ser a obtusa de amanhã — se insistir em ver tudo com os óculos do século anterior.
Os Jovens Não São de Cristal. São de Códigos
Existe um mito encantador — e mentiroso — de que os jovens não aguentam pressão. Que se demitem fácil. Que não têm paciência. Que querem tudo rápido. E que por isso são “frágeis”. Mas o que esse argumento esconde é algo ainda mais perturbador: eles simplesmente não querem pagar o mesmo preço que nós pagamos por um sistema que sempre nos enganou.
Eles não querem trabalhar 40 anos para ganhar um relógio no fim. Não querem fingir respeito por líderes medíocres. Não querem fingir estabilidade quando a empresa troca de dono a cada dois meses. E não querem passar a vida economizando para morrer com medo de gastar.
Ah, mas eles têm “pouca tolerância à frustração”? Talvez. Mas isso só parece defeito quando a frustração virou moeda oficial do mundo corporativo.
Eles não querem ser felizes — querem ser interessantes. E isso, meu bem, é quase um insulto num mundo que só premia os obedientes.
Emburrecemos Mesmo?
Talvez sim. Mas não do jeito que você pensa.
Estamos nos tornando incapazes de manter a atenção em uma ideia por mais de dois parágrafos. De sustentar um argumento sem recorrer a gritos ou figurinhas. De discutir sem cancelar. De admirar o silêncio. De atravessar um livro sem pular páginas. De conversar sem checar notificações.
E o mais irônico: culpamos a juventude por isso, quando fomos nós que entregamos o mundo a esse ritmo.
A burrice contemporânea não é falta de QI. É falta de tempo. De foco. De pausa. É uma burrice performática — com filtros, efeitos e slogans motivacionais. E o mais grave: é uma burrice rentável. Porque quanto menos você pensa, mais fácil é te vender uma ideia — ou um investimento que não se sustenta nem em meme.
Uma Nova Esperteza (com QR Code Incluso)
Mas não se engane. A nova geração não é burra. É seletiva. Não lê bula, mas lê contrato de aluguel. Não compra jornal, mas sabe onde achar o dossiê. Não memoriza capitais, mas sabe procurar o histórico de dividendos de uma empresa em 30 segundos. Não sabe que a capital do Piauí é Teresina, mas sabe dizer qual ação pagou mais em 2022 — e por quê.
Eles têm um tipo de inteligência que nós ainda não aprendemos a nomear. Porque exige desapego ao que fomos, e coragem para reconhecer que o mundo deles, embora mais confuso, tem mais atalhos do que o nosso jamais sonhou.
Investir em Inteligência Não É O Que Você Pensa
Se você, como eu, está pensando no futuro com olhos fechados — não por medo, mas por convicção —, já deve ter percebido que inteligência nunca foi um número. Nem uma nota. Nem um título. Foi sempre a capacidade de navegar entre ruídos, encontrar sentido no caos e saber o momento certo de agir.
Investir bem, afinal, não é seguir fórmulas antigas. É ousar confiar em quem tem perguntas melhores do que as suas. E, se os jovens estão cheios de perguntas, talvez sejamos nós os que não sabem mais escutar.
Toda vez que você pensa que o mundo está piorando, pergunte-se: ele está piorando — ou apenas não está mais se curvando às suas certezas?
—Ho-kei Dube
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