Carimbo de Modernidade: o país que normalizou a bagunça e chamou isso de “jeitinho brasileiro”

No Brasil, a gente adora uma cena de modernidade. Tem auditório, tem microfone, tem slide com palavras em inglês e tem um senhor muito convicto dizendo que “gestão é tudo”. A plateia aplaude como se tivesse descoberto o fogo. No intervalo, alguém reclama da fila, alguém reclama do sistema, alguém reclama da burocracia. Ninguém repara na ironia: o país que faz palestra sobre eficiência vive tropeçando no próprio balcão.

E, no fim, quem valida o discurso é o mesmo objeto de sempre: o carimbo.

Uma Data no Papel

Existe um tipo de história que fica mais perigosa quando é verdadeira. Porque ela não precisa de exagero para doer.

Em 1931, o Brasil organizou o ensino comercial por decreto e, dentro dele, colocou algo com um nome que parece inocente e, ao mesmo tempo, ambicioso: “curso superior de administração e finanças”. Não era um curso lateral. Estava escrito, preto no branco, como parte do desenho do ensino comercial. E aí vem a primeira “curiosidade jurídica” que faz a gente engasgar: quem terminasse esse curso superior, segundo o próprio texto, receberia diploma de bacharel em ciências econômicas e poderia obter o título de doutor em ciências econômicas, se defendesse tese. Administração e finanças, mas o diploma era economia. A administração já nascia misturada no mesmo liquidificador institucional.

Não era só nome. O currículo listava “Ciência da administração” como disciplina, ao lado de finanças, economia bancária, direito administrativo, sociologia, psicologia, lógica e ética. Administração não era um tempero; estava no prato. Só que o prato vinha com etiqueta de outro restaurante.

E então chega 1945. Outro decreto, outra reorganização, outra lógica. A partir do ano escolar de 1946, o curso superior de administração e finanças seria extinto. A mesma norma também extingue o curso de atuário daquele desenho anterior. E aqui aparece uma segunda curiosidade, menos elegante: o decreto de 1945, ao citar o decreto de 1931, registra a data como “30 de julho”, enquanto o registro legislativo oficial indica “30 de junho”. É pequeno? É. Mas é simbólico. Quando um país trata a própria arquitetura educacional como burocracia de papel, até a data escorrega.

O resultado dessa sequência não é um “apagão total” da administração para sempre, como se alguém tivesse trancado uma porta e jogado a chave no rio. Seria fácil demais. O que acontece é mais brasileiro: a administração continua ali como disciplina, aparece até nas grades dos cursos reorganizados em 1945, mas o campo vai crescendo de modo torto, fragmentado, ora engolido por economia e contabilidade, ora empurrado para o canto como um assunto “menos nobre”. E a profissionalização formal só ganha marco legal, muitos anos depois, com a lei que regula a profissão de Técnico de Administração, em 1965.

Ou seja: não é um país “sem administração”. É um país que demorou a tratar administração como coisa séria, autônoma e central.

Administração como Acessório

O brasileiro tem uma relação curiosa com a palavra “administração”. Ele usa a palavra como se fosse um adorno. “Falta administração”, ele diz, como quem diz “falta sal”. E volta a comer o mesmo prato ruim.

Administração, no mundo real, não é sal. É cozinha.

É método para decidir sob incerteza. É governança para evitar que vaidade vire estratégia. É desenho de processos para impedir que rotina vire castigo. É gestão de gente para que talento não seja tratado como descartável. É alocação de recursos para que dinheiro não vire fumaça bonita em relatório anual.

Quando a administração é tratada como acessório, duas coisas viram “normais” no país:

  1. a bagunça administrativa se torna paisagem
  2. o improviso vira cultura e passa por inteligência

E isso é um problema econômico sem precisar ser economista para perceber. O desperdício de tempo, de energia, de capital e de confiança é a inflação invisível do cotidiano.

Mas Ho-kei…?

Mas Ho-kei… você está dizendo que o Brasil seria outro se tivesse formado mais administradores?

Não. Eu estou dizendo algo mais perigoso: o Brasil seria outro se tivesse tratado administração como infraestrutura, e não como diploma ornamental.

Porque administrador não é sinônimo de “gente de MBA” e nem de “chefia”. Administrador é quem sabe coordenar variáveis sem transformar a empresa em ringue e o Estado em labirinto. É quem sabe fazer o básico funcionar com dignidade: comprar, pagar, contratar, planejar, medir, corrigir, comunicar. Parece simples. Não é. E, justamente por isso, quando falta, ninguém percebe no começo. A falta vira normalidade.

É como morar em casa com vazamento. Você se acostuma com o balde. Um dia, você acha que o balde faz parte da arquitetura.

A pergunta séria não é se “proibiram” administração por X anos. A pergunta séria é: por que demoramos tanto para construir a cultura de comando profissional, de gestão como ofício, de administração como ciência aplicada à vida coletiva?

Pós-guerra: o mundo treinando gestores

Enquanto isso, o mundo industrial do pós-guerra tinha outro tipo de obsessão: produtividade, reconstrução, escala, coordenação. E coordenação exige gente treinada para coordenar. Nos Estados Unidos, a explosão de matrícula no ensino superior com a legislação de benefícios educacionais aos veteranos ampliou enormemente o acesso e ajudou a formar capital humano em massa. No mesmo período, a educação de negócios se expandiu e se sofisticou, puxada por demanda econômica e por uma cultura de profissionalização gerencial.

No Reino Unido, a criação de escolas de negócios de pós-graduação é parte de um processo de modernização gerencial que ganha corpo nos anos 1960, com instituições como a London Business School. Na Coreia do Sul, a política educacional e a formação de recursos humanos se alinham, especialmente a partir dos anos 1960, ao projeto de desenvolvimento e industrialização.

Eu não estou dizendo que “lá fora todo mundo fez certo e aqui ninguém fez”. Seria infantil. Eu estou dizendo que, em muitos lugares, gestão virou prioridade institucional. Aqui, por muito tempo, gestão virou sinônimo de “jeitinho que deu certo”.

E o “jeitinho” é um investimento caro.

A Parte do Investidor

Agora muda o foco: o investidor não deve torcer. Deve mapear risco.

E uma das formas mais negligenciadas de risco no Brasil é risco de gestão. Não “gestão” como performance de palco, mas gestão como capacidade operacional e institucional.

Se você quer olhar isso com elegância prática, pense assim: uma economia pode ter bons empreendedores e ainda assim ser ruim em administração. E quando ela é ruim em administração, ela queima capital como quem queima vela para pedir milagre.

Antes da lista, a moldura: por que isso importa para quem investe? Porque gestão deficiente não aparece só em margem. Ela aparece em crise recorrente, em projetos que nunca terminam, em custos que estouram, em compliance improvisado, em governança que depende de humor. E humor não é modelo de negócios.

Sinais que merecem atenção quando você avalia uma empresa ou um setor:

  • Confusão entre controle e execução: dono manda no detalhe e chama isso de “cultura”
  • Alta rotatividade de executivos bons: a empresa parece alérgica a profissional competente
  • Processos frágeis: tudo depende de pessoas específicas, não de sistema
  • Decisões sem cadência: ora acelera por vaidade, ora paralisa por medo
  • Falta de métricas de aprendizado: a empresa erra e não aprende, só troca a narrativa

Então, se você quer uma tese simples para levar na carteira: administração bem feita é um amortecedor de risco. E, num país de volatilidade, amortecedor não é luxo. É sobrevivência.

O Diploma que Virou Espelho

Eu volto àquela curiosidade de 1931 porque ela é mais do que curiosa. Ela é simbólica.

Ser “formado” naquele curso superior de administração e finanças e receber diploma de bacharel em ciências econômicas mostra como o país, por muito tempo, tratou administração como apêndice de economia e finanças. Como se administrar fosse apenas entender números. Como se gente, processo, cultura, estratégia, execução e governança fossem rodapé.

E o decreto de 1945, ao reorganizar cursos e extinguir aquele arranjo específico, mantém “Ciência da administração” como disciplina nas grades de economia e contábeis. É a assinatura perfeita do nosso estilo: a ideia não some, mas a autonomia institucional patina.

Depois, nos anos 1960, a administração ganha contornos mais claros, formação mais definida, regulação profissional. Mas a trajetória anterior deixa marca: a naturalização da bagunça, a confusão entre “ser dono” e “ser gestor”, a crença de que “na prática a gente aprende” como desculpa para nunca aprender de verdade.

Conclusão. Se tiver uma.

A pergunta final não é histórica. É contemporânea e cruel: se administração é o ofício de coordenar o complexo, por que nós aceitamos tanta descoordenação como se fosse destino?

A consequência é simples: um país que trata administração como acessório paga com produtividade baixa, desperdício alto e empresas que envelhecem antes de amadurecer. E isso não é uma teoria. É o troco que nunca fecha no caixa.

— Ho-kei Dube

Fontes para aprofundamento

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