O Lucro Tem Boa Memória. Já os Mortos, Nem Sempre: Por que o silêncio também é um instrumento de poder — inclusive nos balanços e nos monumentos?

Há quem diga que o tempo cura tudo. Isso é mentira. O tempo apenas arquiva. E como todo bom arquivista corporativo, também ele aprende a esconder documentos sensíveis, a maquiar resultados e a esquecer o que for inconveniente. O tempo, meus caros leitores e leitoras, é um contador treinado por décadas em alguma auditoria de reputação duvidosa. Ele não mente — apenas não lembra.

E esquecer, neste mundo, é quase sempre um ato com CNPJ.

Quando alguém diz que a história é escrita pelos vencedores, o que raramente se menciona é que esses vencedores têm um departamento de marketing excepcional. São capazes de transformar genocídios em episódios, chacinas em “ajustes territoriais” e apagamentos em “progresso”.

É claro, ninguém gosta de conviver com o próprio passado — especialmente quando ele fede.

Mas há algo ainda mais cruel do que matar: é 'deslembrar'. E o mercado, esse escultor de narrativas, é perito nisso. Esquece crises como quem arquiva e-mails. Varre escândalos com o rodapé do próximo trimestre. Troca um CEO e acha que trocou de consciência.

Não falo aqui de política — falo de poder. E o dinheiro, como se sabe, é seu dialeto mais falado.

Toda planilha carrega pequenas omissões autorizadas. E todo gráfico tem suas zonas de sombra. O que não se diz na legenda é o que mais importa. Já notou? A curva de lucro é memorável. A curva de dor, nem tanto. Quem lembra das mineradoras que lucraram em cima de lama e luto? Dos bancos que financiaram ditaduras? Dos fundos que enriqueceram em cima de escassez?

Ninguém. Porque isso não consta nos relatórios. E os mortos não têm login para contestar.

Em algumas regiões do mundo, há uma prática antiga: plantar flores sobre os ossos. Ergue-se uma igreja sobre a catacumba, um monumento sobre o massacre, uma praça sobre o campo de execução. E tudo vira paisagem. A estética camufla a ética. É o velho truque do verniz: faça parecer bonito o que deveria ser apenas digno. Mas o capitalismo aprendeu com isso. Hoje ele não cobre os ossos — cobre os dados.

Quantas empresas têm flores demais sobre esqueletos demais?

Não é preciso ir muito longe. Basta olhar o próprio extrato bancário. Você verá ali, quietos, dividendos de ações que cresceram explorando gente, terra ou silêncio. Talvez você, como eu, já tenha sido sócia involuntária de alguma injustiça rentável. E, por tabela, conivente de algum apagamento.

Afinal, a memória também tem ações negociadas em bolsa. E quanto maior a dor, menor o interesse por sua capitalização.

Mas não se iluda: o esquecimento não é gratuito. Ele tem custo — e alto.

Apagar uma história exige manutenção constante. É preciso recontar os fatos com palavras novas, redesenhar mapas com fronteiras convenientes, editar o passado como quem revisa um release antes da coletiva. E isso demanda gente, verba e estratégia. Justamente o que falta para os que morreram duas vezes: primeiro no corpo, depois na lembrança.

Não é por acaso que certas tragédias ganham filmes, livros, museus — e outras, nem uma nota de rodapé. A memória não é justa: ela é gerenciada. E, como todo ativo gerenciado, obedece à lógica do interesse, não à da justiça.

Outro dia, um conhecido me disse: “Ninguém quer saber de histórias tristes, Ho-kei, o povo quer esperança”. Entendi o recado. Mas engoli seco.

Porque, veja bem, eu sou cega — e ainda assim me recuso a fechar os olhos.

Esperança, para mim, não é a negação da dor. É a lucidez de nomeá-la. É a coragem de lembrar com todas as letras aquilo que muitos preferem resumir em notas de rodapé contábil.

É dizer, por exemplo, que sim, o progresso chegou — mas cobrou pedágio em sangue. Que sim, a empresa dobrou de tamanho — mas esqueceu de mencionar que a terra onde construiu sua sede tinha dono antes da desapropriação. Que sim, a inovação disruptiva criou empregos — mas também excluiu milhões sem sequer despedir com dignidade.

Ah, as despedidas…

Nos mercados, elas costumam ser silenciosas, mesmo quando definitivas. Um corte aqui, um enxugamento ali, um “reposicionamento estratégico” acolá — e pronto: temos um novo balanço, mais enxuto, mais sexy, mais vendável. Como um obituário escrito por assessoria de imprensa.

Mas pergunte aos que saíram. Pergunte aos que foram esquecidos. Pergunte às comunidades onde a empresa passou como um trator, levando tudo, deixando apenas vagas promessas de “compensação socioambiental”. Essas histórias não entram nos gráficos. São chamadas de “casos isolados”.

Deus nos livre dos casos isolados — eles matam em série.

Sim, eu sei. Você queria um texto sobre finanças.

Então aqui vai: quem não sabe onde pisa, investe mal. E quem não lembra onde pisou, tropeça duas vezes. No Brasil, o passado é um ativo desvalorizado — e isso nos condena à repetição.

A escravidão, por exemplo, foi um dos modelos de negócios mais lucrativos da história. Ainda rende dividendos. Basta olhar para a distribuição de terras, de patrimônio, de acesso. E depois olhar os balanços que ignoram isso como se fosse detalhe técnico, e não alicerce.

Estamos todos sobre alicerces rachados — mas a arquitetura do discurso é tão sofisticada que nos faz achar que a culpa é da chuva.

O que proponho não é revolução. É algo muito mais radical: memória.

Porque lembrar, neste mundo, é o gesto mais perigoso que se pode ter. Quando você lembra, atrapalha. Quando você nomeia, incomoda. Quando você conecta passado e presente, desorganiza a ordem dos que lucram com o esquecimento.

Eu sei. Não é simples.

Mas se você não quiser morrer duas vezes — e nem matar ninguém por omissão — comece por uma pergunta básica: quem está fora da sua planilha?

Enquanto isso, sigo aqui, olhando com a mente o que outros não veem nem com os olhos.

Afinal, os cegos — ao contrário dos distraídos — jamais confundem silêncio com esquecimento.

P.S. A memória é um ativo de alta volatilidade: perde valor quando não é protegida. E diferente das ações, não dá para recomprar depois do apagamento completo.

— Ho-kei Dube

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