O Eu, o Outro e o Pix: Como o mercado treina seus sentidos para vender o que você já queria comprar antes mesmo de saber

Os sentidos, dizem, são janelas para o mundo. Mas ultimamente, desconfio que estão mais para vitrine de shopping de luxo: você não vê o que há, vê o que pode ser vendido.

Antes que me acusem de filosofia barata com etiqueta de boutique, aviso: sou cega. E posso garantir que os olhos mentem com a mesma desenvoltura dos algoritmos de recomendação. Enquanto todo mundo se preocupa com o que vê, ouve ou sente, pouca gente se pergunta: “Quem ensinou meu corpo a interpretar o mundo assim?”

Porque, convenhamos, ninguém nasce achando uma nota de cem mais valiosa do que uma flor. Isso é um tipo de educação estética, econômica e política que a gente absorve como perfume caro: pelo ar, sem saber direito o que está inalando. E de repente, já está achando que um gráfico de projeção de crescimento é mais confiável que sua própria intuição.

Mas voltemos aos sentidos. Há quem ouça “tchibum” e pense em praia. Outros ouvem “tic-tac” e sentem o tempo correndo nas veias feito boleto vencido. Eu, quando ouço a palavra “rentabilidade”, já preparo meu cinto de segurança: sei que vem curva fechada, geralmente mascarada de linha ascendente.

Porque há um truque antigo no mundo das finanças: fazer parecer que o que você sente é o que você escolheu. Que sua aversão ao risco é sua, não uma fobia induzida por vinte anos de propaganda sobre o “seguro” da previdência privada. Que sua “educação financeira” é libertadora, quando na verdade é um dress code disfarçado — e sem código de barras visível.

Não me entenda mal: gosto de método. Gosto de régua, régua que mede e revela. Mas também sei que nem toda régua é confiável — principalmente aquelas que são distribuídas por quem tem interesse que você acredite que o seu metro e meio é insuficiente para alcançar o sucesso. E quando o assunto é percepção, ah... aí a régua some, e entra em cena o espelho.

Me disseram outro dia que eu devia fazer um curso para “ampliar minha percepção sensorial”. Engraçado, pensei. Quem enxerga demais costuma ouvir de menos. E quem ouve demais, às vezes esquece de perguntar. A percepção não se amplia num curso: ela se desloca. Ela se arranha. Ela se desconcerta. E ela se trai, quando acha que está apenas observando, quando na verdade está julgando.

O mercado sabe disso. Treinou você desde cedo para confundir estímulo com verdade. Deixou a vitrine mais iluminada do que a sala de aula. Fez você decorar jargões como “diversificação de portfólio” antes de entender o que, de fato, você quer diversificar: risco, tédio, identidade?

Sim, o tédio também é um risco. Mas poucos falam disso em planejamentos de aposentadoria.

Outro dia, uma moça me perguntou se eu achava que ser cega me dava vantagem no mundo das finanças, por “não me deixar seduzir pelas aparências”. Ri. Se ela soubesse quantas vezes já tentei fazer o mercado enxergar a mim como sou — profissional, crítica, mulher — e não como uma exceção inspiradora digna de TED Talk, ela entenderia que a sedução visual é só um entre muitos filtros. Os mais poderosos são invisíveis.

Aliás, vamos falar sobre isso. O invisível. Aquilo que não se vê, mas se presume. Como a tal “racionalidade econômica” que todo gestor diz ter. Como a “imparcialidade dos dados”. Como a “inteligência” dos robôs advisors. Todos esses conceitos vêm com um certificado de neutralidade, como se fossem suco sem corante.

Mas eu, que sei o que é viver sem enxergar o suposto “óbvio”, posso afirmar: não existe percepção sem contexto. E o contexto é tudo, menos neutro.

Você não ouve um número. Você ouve a história que contaram sobre ele. Não sente apenas o calor da inflação. Sente o peso simbólico de comprar menos, de parecer menos, de se sentir menos.

A subjetividade virou o novo mercado de capitais: cada um especulando sobre o valor do próprio eu, cotado em curtidas, promoções ou orgasmos simulados. A ilusão é achar que isso é liberdade. Quando, na verdade, estamos todos no call center da subjetividade, esperando que alguém atenda e diga que sim, sua percepção é válida, seu desejo é legítimo e sua aposentadoria estará segura com este fundo exclusivo que, coincidentemente, acabou de ser lançado.

Falam muito hoje em “personalização”. O carro do seu gosto, o vinho da sua uva, o investimento com a sua cara. E não se percebe o quão padronizado é esse desejo de ser único. Como se o Eu, esse pequeno ego de consumo, fosse mesmo o centro de gravidade do mundo — e não uma engrenagem delicada entre tempo, história e conveniência de mercado.

Quer ver? Observe o que acontece quando um produto financeiro não vende. A culpa é do produto? Não. É do cliente que “não entendeu”. Do usuário que “não teve mentalidade”. Da consumidora que “não soube entender sua jornada financeira”. A culpa, como sempre, é do sujeito — nunca do sistema que treinou esse sujeito para acreditar que só existe uma forma de prosperar: a vendida em cursos parceláveis em até doze vezes no cartão.

Eu, sinceramente, não acredito mais nesse Eu de vitrine. Prefiro o Eu de bastidor. Aquele que sabe que a percepção é falha, mas segue buscando. Que entende que a subjetividade pode ser explorada — inclusive emocionalmente — para vender o que você já queria comprar. E que desconfia, com toda a força da sua lucidez, que existe sim um mundo real, mas que o mercado prefere que você veja o mundo filtrado por ele.

Ah, e antes que me esqueça: cuidado com os “especialistas em sensibilidade”. Esses que dizem entender sua dor, seu contexto, seu desafio. Que marcam reuniões na véspera de Natal para discutir se a sua deficiência precisa mesmo de acessibilidade — e colocam sua permanência profissional em votação, como se a sua autonomia fosse pauta de happy hour.

Sim, isso aconteceu comigo. O coordenador disse que entendia meus desafios como cega, mas que eu devia aceitar o mundo como ele era: inacessível. E que isso não era problema da equipe — apenas meu. Disse isso enquanto me interrompia para explicar, com a autoridade de quem jamais andou de olhos fechados por cinco minutos, como era “viver com uma limitação”.

Sorri com elegância, apesar da fúria. E, com uma calma que não me é de nascença, fiz valer o direito de trabalhar como cega — e não como se enxergasse. O que seria não só absurdo, como ineficiente. Porque a pior cegueira é a que tenta simular visão.

No fim das contas, talvez a pergunta não seja “o que você vê?”, mas “o que te ensinaram a ver como verdadeiro?”. O mercado, esse mestre da coreografia do desejo, não se importa com sua lucidez. Ele prefere que você sinta. De preferência, o medo. E que confunda esse medo com bom senso.

Mas aqui, nesta trincheira que é o “Dinheiro Que Me Veja”, eu insisto: quem precisa abrir os olhos é o dinheiro. E talvez, também, a ideia do Eu que ele fabrica com tanto esmero.

— Ho-kei Dube

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Investindo em Pessoas: Por Que a Excelência Humana Vale Mais que Mil Gráficos

Mandar É Pouco, Humilhar É Que Dá Prazer: Como o pequeno poder alimenta a fome de grandeza de quem nunca foi servido

O Investidor Não Compra Dados — Compra Histórias (e Clichês Bem Embalados)