Estatística, Sal Grosso e a Ilusão de Controle (como o mercado trocou os rituais por planilhas, sem jamais deixar de acreditar em milagres?)
Eu cresci ouvindo que não se varre a casa depois das seis da tarde. Nem se canta na cozinha — muito menos de costas. Que cruzar pernas enquanto reza bloqueia a graça. Que manga com leite mata. Que espelho quebrado dura sete anos e promessa feita na chuva gruda que nem urucubaca. Eu não acreditava em nada disso, é claro. Mas — veja bem — também não duvidava por completo.
Afinal, tem coisa que a gente não entende, e tudo que a gente não entende, cedo ou tarde, vai parar na prateleira do medo. Foi assim com a tempestade, com a fertilidade, com o amor não correspondido — e agora com o risco financeiro. Sim, risco. Aquela entidade moderna com cara de fórmula matemática, que ninguém viu, ninguém segurou, mas que ronda as decisões dos investidores como um espírito meio debochado: aparece quando você se acha mais preparado.
Enquanto minha avó benzia criança com infusão de arruda e pétalas de rosa, o mercado hoje benze portfólio com modelo estocástico. E a diferença entre os dois, francamente, é de vestimenta.
Proteção, sempre ela
O ser humano é uma criatura frágil com mania de controle. Como não suportamos viver na incerteza, inventamos formas de disfarçá-la. Uns usam talismã, outros usam Tesouro Selic. Tem quem acenda vela de sete dias, e tem quem abra o home broker de sete em sete minutos. Uns penduram olho-grego, outros aplicam em fundos "quantitativos". A semelhança é menos absurda do que parece.
Toda fórmula financeira é, no fundo, um pedido de proteção. É a tentativa desesperada de dizer ao futuro: “me respeita que eu estudei”. O problema é que o futuro não lê planilhas.
Se você acha que isso é blasfêmia contra os deuses do Excel, me perdoe — mas não muito. Porque estatística, sem ética e sem contexto, é só um novo nome para a feitiçaria. Daquela feita com roupa social, claro, e um gráfico em vez do caldeirão. Mas o cheiro de ilusão é o mesmo.
O santo do dia e o índice do mês
Lembro de uma amiga que, em tempos de dúvida, consultava o horóscopo financeiro. “Mercúrio retrógrado em Capricórnio: evite decisões de longo prazo.” — E ela obedecia. Meses depois, trocou astrologia por macroeconomia, e passou a seguir um analista com o mesmo fervor. O oráculo agora usava paletó e falava de PIB. Mas o efeito era idêntico: paralisia elegante.
Trocar crença por cálculo não resolve a insegurança — só a maquila. O número é o novo amuleto. E se a lógica não der conta, a gente apela para o que estiver disponível: uma tabela, um índice, um palpite. Porque viver, minha cara leitora, é como atravessar um pântano com salto agulha: você finge que tem firmeza, mas reza para não afundar.
A religião dos dados
O que mais me espanta não é que o mercado acredite em dados. É que ele os adore. Os dados viraram uma espécie de religião politeísta — têm santinhos para todos os gostos: ROI, EBITDA, IPCA, IGPM, VIX. E como toda boa religião, eles também têm seus profetas (chamam-se “analistas”), seus hereges (“day traders”) e seus dogmas (“diversifique” ou "invista no exterior"). E, claro, suas penitências: a mais comum chama-se “holder”.
Mas quando o mercado quer mesmo se punir, ele faz 'backtest'. Um ritual meio sádico de refazer o passado como se fosse possível domesticar o que passou. Como se, entendendo o caminho das chuvas do último verão, fosse possível evitá-las no próximo. É bonito, é racional, é técnico. Só não é verdade.
O culto ao preditivo
Hoje, tudo se mede. A bolsa mede expectativa. A empresa mede engajamento. O investidor mede volatilidade. E quando não mede, estima. E quando estima, projeta. E quando projeta, acredita. E quando acredita, compra.
Pelo caminho, esqueceram que o que não se mede bem não se conhece. E o que se mede mal, engana. Eu que o diga: cega que sou, não pude responder à pergunta básica do Censo sobre deficiência porque... ela não foi feita. Simples assim. O questionário completo? Só para uma parcela mínima da população. O resto que lute. Resultado? O Brasil segue sem saber, com precisão, quantas pessoas com deficiência existem no país.
Ora, se nem contar cegos o Estado consegue direito, imagine calcular risco-país. E no entanto, confiamos. Religiosamente. Com fé de quem compra sem ler, de quem aplica sem entender, de quem reza para a curva de juros descer como quem invoca São Pedro no meio da seca.
O dia em que o Excel virou Santo Antônio
A melhor definição de planejamento financeiro é essa: um contrato entre você e o acaso, redigido em português, mas interpretado em latim. Se der certo, foi mérito. Se der errado, foi o mercado.
E aqui entra a parte divertida: o mercado, esse ente supostamente racional, adora um simbolismo. Vide as reações a números “redondos” — como se o índice 100.000 tivesse mais significado do que o 99.987. Vide a superstição das segundas-feiras. Vide o pânico coletivo quando a ação quebra o “suporte psicológico”.
Você acha que o ritual morreu? Que superstição é coisa de quem acende vela? Pois bem. O investidor moderno acende LED. Mas a alma, ah, a alma continua supersticiosa.
O amuleto da vez
Nos últimos tempos, tenho visto uma nova categoria de investidores emergindo: os que não operam, mas fazem simpatia. Ao invés de seguir uma tese, seguem um influencer. Ao invés de analisar fundamentos, consultam a intuição — ou, pior, a modinha.
Aplicam em ações e investmentos com nomes bonitos. Confiam em fundos que usam palavras místicas como “momentum”, "COE", “macro”, “alocação dinâmica”. Fazem promessas à planilha como quem faz promessa no altar: “Se subir 15%, eu saio. Eu juro.”
Quando sobe 14,7%, eles interpretam como sinal divino. E seguem. Até o abismo. Porque toda fé sem lucidez, mesmo travestida de racionalidade, termina em decepção. Ou em prejuízo.
Risco, aquele velho conhecido
Assumir risco não é o mesmo que domesticá-lo. O mercado gosta de fingir que já aprendeu a brincar com cobras, mas vive levando picada. E o mais curioso: insiste em culpar a cobra.
Falam em “choques exógenos”, em “eventos cisne-negro”, em “volatilidade atípica”. Mas na prática, tudo isso significa uma só coisa: “Não sabíamos. E não queríamos admitir que não sabíamos.” O que, convenhamos, não é tão diferente daquela tia que jogava sal atrás da porta porque “não custa tentar”.
A racionalidade tem limite — o bom senso, também
Não estou dizendo que é errado buscar proteção. Muito pelo contrário. Todo mundo precisa de uma bengala para atravessar o invisível. Eu uso a minha com gosto. Mas ao contrário do que prega o manual do investidor maduro, não existe blindagem total. Só existe convivência com o imponderável.
Aceitar isso pode ser libertador. Pode ser, inclusive, lucrativo. Porque quem entende que não controla tudo escolhe melhor. Não escolhe por desespero. Escolhe com humildade.
E humildade, meus caros, é o oposto do que se vende por aí.
Conclusão? Só com vela acesa
Não, não acredito que um gráfico seja melhor do que uma reza. Tampouco acho que benzedeira substitua analista. Mas entre uma projeção otimista e uma espada-de-são-jorge atrás da porta, talvez a diferença esteja só na estética.
E se algum dia você me ouvir dizendo que não aplico porque “o ascendente da Selic não está favorável”, não estranhe. Estarei apenas fazendo o que todos fazem: inventando uma lógica para suportar o caos.
Porque no fim do dia, seja com Excel ou com rosário, a gente só quer sobreviver ao imprevisível com um mínimo de elegância. E, se possível, sem perder dinheiro. Por isso sigamos estudando, aprendendo e tendo uma postura de humildade perante o mercado e futuro.
Feliz Ano Novo!
— Ho-kei Dube
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