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A Moeda do Tanque: quando o mundo finge discutir petróleo, mas está brigando pelo recibo

Eu adoro quando a economia se fantasia de moral. Fica tudo mais fotogênico: “o bem” de um lado, “o mal” do outro, e um coro de especialistas com voz de telejornal explicando que o problema é “a instabilidade”, “a intolerância”, “a ameaça civilizacional” — como se o planeta fosse uma peça de teatro mal ensaiada. Só que quase toda grande briga internacional começa exatamente onde a poesia termina: no recibo. Não é o petróleo em si que enlouquece o mundo. É a pergunta miúda, prosaica e indecente: quem assina a nota , com qual caneta — e em que moeda . O truque do mundo moderno: transformar necessidade em religião Petróleo (e qualquer energia que mova o cotidiano) não é mercadoria comum. Ele tem uma qualidade que nenhum discurso motivacional consegue falsificar: a demanda é teimosa. Você pode cancelar streaming, cortar o brunch, virar minimalista de aplicativo. Mas, quando transporte e energia sobem, até a sua filosofia acorda com dor na lombar. O mundo, que não é bobo, fez da energia ...

Quando o Número Mente, Mas o Caráter Grita

Alguns investem em gráficos e dicas. Outros, em pessoas. E há quem jure que o número é a única verdade confiável do mercado. Esses, geralmente, acabam chorando em silêncio quando a planilha quebra o coração. Porque o número, coitado, não passa de um reflexo temporário — às vezes maquiado, às vezes bêbado, quase sempre cego para o que realmente importa: a qualidade da história por trás da conta. A maioria dos balanços brilha como vitrine de joalheria: luz calculada, vidro polido, exposição cirúrgica do que convém mostrar. E, ainda assim, há quem entre nesses estabelecimentos de lucros decorativos achando que está adquirindo solidez. Spoiler: está comprando vitrines. Não, meu bem, a verdadeira riqueza não se revela na rentabilidade trimestral, mas na firmeza de propósito de quem segura o timão do barco — mesmo quando o mar muda de humor. Investir, no fim das contas, é escolher quem você quer que pilote seu navio enquanto você cochila confiando que acordará em terra firme. A Arte Esqu...

Estatística, Sal Grosso e a Ilusão de Controle (como o mercado trocou os rituais por planilhas, sem jamais deixar de acreditar em milagres?)

Eu cresci ouvindo que não se varre a casa depois das seis da tarde. Nem se canta na cozinha — muito menos de costas. Que cruzar pernas enquanto reza bloqueia a graça. Que manga com leite mata. Que espelho quebrado dura sete anos e promessa feita na chuva gruda que nem urucubaca. Eu não acreditava em nada disso, é claro. Mas — veja bem — também não duvidava por completo. Afinal, tem coisa que a gente não entende, e tudo que a gente não entende, cedo ou tarde, vai parar na prateleira do medo. Foi assim com a tempestade, com a fertilidade, com o amor não correspondido — e agora com o risco financeiro. Sim, risco. Aquela entidade moderna com cara de fórmula matemática, que ninguém viu, ninguém segurou, mas que ronda as decisões dos investidores como um espírito meio debochado: aparece quando você se acha mais preparado. Enquanto minha avó benzia criança com infusão de arruda e pétalas de rosa, o mercado hoje benze portfólio com modelo estocástico. E a diferença entre os dois, francamente...

Portfólio de Vida: Como Diversificar o que Não Cabe na Planilha

Dizem que dinheiro não compra felicidade. Que graça teria a felicidade, se desse para parcelar em doze vezes sem juros? Prefiro a versão menos piedosa e mais útil: dinheiro compra silêncio. Silêncio para as urgências que gritam, para as contas que latem, para as madrugadas em que a cabeça faz barulho. Dinheiro compra a pausa em que se decide sem pânico. O resto — sentido, amor, liberdade de dizer “não” — precisa de outras moedas. É por isso que eu não abro os olhos: quem precisa abrir os olhos é o dinheiro. Ele que aprenda, de uma vez, que o objetivo não é se exibir na tela com números gordos, mas sustentar o palco onde a vida acontece sem microfonia. Aprendi — tropeçando com elegância — que a vida funciona como uma carteira bem montada: há ativos que dão retorno lento, outros que sobem e descem como elevador de prédio antigo, e alguns que parecem promissores na vitrine, mas murcham no primeiro uso. Não estou falando de ações ou títulos; estou falando de escolhas. Trabalho, família, c...

Fique Parado (mas com Elegância): Sobre o Delicado Prazer de Não Fazer Nada Quando Todos Estão Gritando "Compra!"

Há um ditado tibetano que não entra nas planilhas nem nos stories motivacionais: “Não se atravessa um rio movendo-se com a corrente — atravessa-se quando a água baixa e os pés encontram o chão.” Simples, direto, e como toda sabedoria ancestral, assustadoramente lúcido. Foi lembrando dessa máxima que decidi escrever este texto. Enquanto os feeds se enchem de foguetes apontando para os céus da Bolsa, carteiras vestidas com brilho de alta performance e investidores performando vídeos no TikTok com a empolgação de uma criança que descobriu o botão da máquina de chicletes, eu optei por fazer o impensável: parar. Sim, parei. Não vendi, não comprei, não reorganizei a carteira, não revisei o “preço justo” das minhas queridas ações. Apenas fiquei quieta. E se você quer saber, foi uma das decisões mais sofisticadas que já tomei com meu dinheiro. Mais ainda: foi uma decisão espiritual. Porque “parar” é diferente de “não fazer nada”. E essa diferença, meu caro leitor ansioso, vale mais que uma ...

O Último Silêncio Antes do Pop-Up (e por que isso pode ajudar investidores?)

De todas as revoluções possíveis no século XXI — a digital, a genética, a climática e a das figurinhas animadas — talvez a mais urgente seja esta: reaprender a permanecer. Permanecer no parágrafo. Na ideia. Na frase que não entrega tudo de bandeja, mas exige um gole de tempo e dois de atenção. Permanecer mesmo quando o celular tilinta, o relógio vibra e o mundo sussurra que pensar demais é improdutivo. Porque ler — eu digo ler de verdade, com o fígado e não com a digital — virou, sim, um ato subversivo. E não falo aqui de decorar jargões de coach ou folhear livros coloridos com resumos prontos. Falo da leitura que desafia a pressa e espanca o algoritmo. Aquela que desorganiza certezas e, por isso mesmo, reorganiza o pensamento. Mas quem ainda lê assim? A Falência do Foco Parcelado Hoje, para ler um parágrafo inteiro, é preciso vencer uma maratona de estímulos: banners piscando, vídeos que prometem mudar sua vida em 14 segundos e alertas de promoções que nunca te promovem a nada a...

A Economia dos Idiotas Únicos — Por que acreditar em um vilão só é o investimento mais caro da sua vida

Dizem que o mundo moderno é obcecado por respostas fáceis. A internet está cheia de gurus que explicam a crise da sua vida em três passos, o fim da inflação em um reajuste mágico e a liberdade financeira em uma planilha colorida que, se fosse levada a sério, já teria resolvido até a dívida externa do Egito Antigo. Pois bem: apresento-lhes o espécime mais perigoso do mundo dos negócios e da fauna econômica contemporânea — o Intelectual de Uma Variável Só . Esse sujeito é a versão financeira do terraplanista: vive num mundo achatado, sem relevo, onde um único fator explica tudo. Para ele, a culpa de todos os males é dos juros. Ou da concentração de renda. Ou do capitalismo. Ou do Estado. Ou do mercado. Tanto faz. A lógica é sempre a mesma: um vilão único, uma cura milagrosa, um aplauso fácil . E é justamente por isso que fazem tanto sucesso. O Fast-food das Ideias Vivemos num tempo em que as pessoas têm preguiça de mastigar conceitos. Querem soluções embaladas, sem espinhas, fáceis ...

Rebelar é Investir — Ou por que os verdadeiros rebeldes quebram a lógica de mercado com dividendos

Se rebeldia fosse uma ação, estaria em alta, custando fortuna e com todo mundo convencido de que é bonitinha. Mas deixe-me contar: os rebeldes que realmente fazem história — e dinheiro — são os que investem onde o aplauso ainda não chegou, os que acreditam que o valor embutido em uma empresa fala mais alto que o ruído do momento. E é aí que está o veneno financeiro com verniz: provocador, elegante, proposital. Rebeldes que não se parecem com heróis de filme Gandhi nunca fez memes motivacionais. Martin Luther King Jr. não tinha briefing de marketing. Steve Jobs não era heroico pelo brilho da sua aura, mas pela audácia de ir contra o conformismo do teclado e da tela. Esses são os rebeldes que importa citar, porque, por mais que o mercado tente transformá-los em slogans, você sente o peso real da visão e não da hashtag. Obviamente, inspiração financeira também tem seu repertório de inconformistas. Em terras brasileiras, Luiz Barsi Filho — conhecido como “rei dos dividendos” — recusou o...

Quem Planta Esperança Investindo por Inveja Hoje, Acaba Colhendo Frustração Amanhã.

Voltei com o mesmo tema da inveja, mas com ar altivo de comparação. Você já ouviu o conselho universal dos infelizes performáticos? “Se compare apenas consigo mesmo.” Pois eu lhe digo: até isso é perigoso — porque até o “você mesmo” de ontem anda dopado de expectativas irreais e métricas que ninguém pediu para seguir. A lógica da comparação, quando se instala no campo financeiro, é como plantar inveja e esperar colher dividendos. O resultado é sempre o mesmo: carteira ansiosa, decisões histéricas e uma sensação crônica de estar atrasado na vida. Não importa se você tem 20 ou 70 anos — se caiu no ciclo da comparação, já entrou no lucro dos outros e no prejuízo do seu juízo. A bolsa não é um espelho mágico Não sei quantos milhões de vezes já repetiram que “cada investidor tem um perfil”, mas o que isso importa quando a métrica invisível é o lucro alheio postado em redes sociais maquiadas com filtro de sucesso? Comparar sua jornada com a de outra pessoa no mercado é como criticar o sa...

O Passado Também É Volátil, Principalmente Quando Está Em PDF: Como o passado financeiro virou um PowerPoint com transtorno dissociativo?

Algumas pessoas mentem com a boca. Outras, com os dedos. E há aquelas que preferem mentir com uma planilha. São as mais perigosas: usam gráficos como álibis, retroprojeções como áureas santificadas e médias históricas como bengalas para justificar toda sorte de dogmas financeiros. Há quem diga que o passado é imutável. Essas almas puras, que provavelmente ainda acreditam em comunicados do RI como literatura honesta, esquecem que o passado é editável. E não só por governos autoritários ou por roteiristas de novela revisionista, mas por gestores, economistas, investidores — e até por você, leitor ou leitora, que já limpou o extrato para apresentar um histórico “menos caótico” à terapeuta ou ao cônjuge. Não se engane: o passado financeiro é uma colcha de retalhos reencapada a cada ciclo de mercado. É a arte do “não foi bem assim”, o balé da “reestruturação contábil”, o sarau da “mudança metodológica”. E quando os números não cooperam com a narrativa, trocam-se os números — ou trocam-se ...

A Tragédia de Ser Comparável: Quando a inveja se disfarça de inspiração e o feed vira régua de fracasso

  A Tragédia de Ser Comparável Comparar-se pode parecer um gesto ingênuo — um deslizamento leve da mente que, ao tropeçar no feed alheio, suspira: “eu também queria”. Mas não se engane. Comparar-se, hoje, é um ritual tóxico e industrializado, embutido na engrenagem da produtividade, da felicidade obrigatória e dos lucros de curto prazo. É o novo jejum intermitente da autoestima: você se priva de dignidade em ciclos de 24 horas, esperando que, em algum momento, seu valor de mercado reaja. A tragédia moderna não é não ser feliz. É parecer infeliz diante de um algoritmo que empilha sorrisos plastificados como se fossem dividendos ininterruptos de uma vida bem-sucedida. Você, que trabalha, respira, paga boletos e ainda sonha com uma aposentadoria honesta, passa a sentir que está falhando — porque alguém, em algum lugar, está construindo o próprio castelo com blocos de felicidade cor-de-rosa no LinkedIn. Mas não se engane: muitas das vezes os muros são de isopor. E o telhado, de ment...