Estatística, Sal Grosso e a Ilusão de Controle (como o mercado trocou os rituais por planilhas, sem jamais deixar de acreditar em milagres?)
Eu cresci ouvindo que não se varre a casa depois das seis da tarde. Nem se canta na cozinha — muito menos de costas. Que cruzar pernas enquanto reza bloqueia a graça. Que manga com leite mata. Que espelho quebrado dura sete anos e promessa feita na chuva gruda que nem urucubaca. Eu não acreditava em nada disso, é claro. Mas — veja bem — também não duvidava por completo. Afinal, tem coisa que a gente não entende, e tudo que a gente não entende, cedo ou tarde, vai parar na prateleira do medo. Foi assim com a tempestade, com a fertilidade, com o amor não correspondido — e agora com o risco financeiro. Sim, risco. Aquela entidade moderna com cara de fórmula matemática, que ninguém viu, ninguém segurou, mas que ronda as decisões dos investidores como um espírito meio debochado: aparece quando você se acha mais preparado. Enquanto minha avó benzia criança com infusão de arruda e pétalas de rosa, o mercado hoje benze portfólio com modelo estocástico. E a diferença entre os dois, francamente...