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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Estatística, Sal Grosso e a Ilusão de Controle (como o mercado trocou os rituais por planilhas, sem jamais deixar de acreditar em milagres?)

Eu cresci ouvindo que não se varre a casa depois das seis da tarde. Nem se canta na cozinha — muito menos de costas. Que cruzar pernas enquanto reza bloqueia a graça. Que manga com leite mata. Que espelho quebrado dura sete anos e promessa feita na chuva gruda que nem urucubaca. Eu não acreditava em nada disso, é claro. Mas — veja bem — também não duvidava por completo. Afinal, tem coisa que a gente não entende, e tudo que a gente não entende, cedo ou tarde, vai parar na prateleira do medo. Foi assim com a tempestade, com a fertilidade, com o amor não correspondido — e agora com o risco financeiro. Sim, risco. Aquela entidade moderna com cara de fórmula matemática, que ninguém viu, ninguém segurou, mas que ronda as decisões dos investidores como um espírito meio debochado: aparece quando você se acha mais preparado. Enquanto minha avó benzia criança com infusão de arruda e pétalas de rosa, o mercado hoje benze portfólio com modelo estocástico. E a diferença entre os dois, francamente...

Portfólio de Vida: Como Diversificar o que Não Cabe na Planilha

Dizem que dinheiro não compra felicidade. Que graça teria a felicidade, se desse para parcelar em doze vezes sem juros? Prefiro a versão menos piedosa e mais útil: dinheiro compra silêncio. Silêncio para as urgências que gritam, para as contas que latem, para as madrugadas em que a cabeça faz barulho. Dinheiro compra a pausa em que se decide sem pânico. O resto — sentido, amor, liberdade de dizer “não” — precisa de outras moedas. É por isso que eu não abro os olhos: quem precisa abrir os olhos é o dinheiro. Ele que aprenda, de uma vez, que o objetivo não é se exibir na tela com números gordos, mas sustentar o palco onde a vida acontece sem microfonia. Aprendi — tropeçando com elegância — que a vida funciona como uma carteira bem montada: há ativos que dão retorno lento, outros que sobem e descem como elevador de prédio antigo, e alguns que parecem promissores na vitrine, mas murcham no primeiro uso. Não estou falando de ações ou títulos; estou falando de escolhas. Trabalho, família, c...

Fique Parado (mas com Elegância): Sobre o Delicado Prazer de Não Fazer Nada Quando Todos Estão Gritando "Compra!"

Há um ditado tibetano que não entra nas planilhas nem nos stories motivacionais: “Não se atravessa um rio movendo-se com a corrente — atravessa-se quando a água baixa e os pés encontram o chão.” Simples, direto, e como toda sabedoria ancestral, assustadoramente lúcido. Foi lembrando dessa máxima que decidi escrever este texto. Enquanto os feeds se enchem de foguetes apontando para os céus da Bolsa, carteiras vestidas com brilho de alta performance e investidores performando vídeos no TikTok com a empolgação de uma criança que descobriu o botão da máquina de chicletes, eu optei por fazer o impensável: parar. Sim, parei. Não vendi, não comprei, não reorganizei a carteira, não revisei o “preço justo” das minhas queridas ações. Apenas fiquei quieta. E se você quer saber, foi uma das decisões mais sofisticadas que já tomei com meu dinheiro. Mais ainda: foi uma decisão espiritual. Porque “parar” é diferente de “não fazer nada”. E essa diferença, meu caro leitor ansioso, vale mais que uma ...